Coluna Vanessa Brasiliense Barcelos 21/03/2019

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 Disciplina e abuso de poder

Quando tinha uns 9 aninhos, entrei para escolinha de vôlei da Elase (clube dos funcionários da Eletrosul), situado na minha cidade natal, Florianópolis. As aulas aconteciam 3 vezes por semana, ou no ginásio do local ou na quadra externa. Éramos em cerca de 25 meninas, todas da mesma faixa etária, aprendendo os princípio básicos do vôlei.

O primeiro professor que tive foi o Maneca, um cara gente boa, meio baixinho e orelhudo, que tentava nos disciplinar usando uns métodos um pouco…. estranhos. Por mais que fôssemos apenas crianças, as aulas eram muito puxadas, com carga de 9 horas semanais (3 horas por dia). O treino não se resumia aos princípios básicos do vôlei; fazíamos treinamento físico também, correndo, fazendo abdominais, percorrendo circuitos, carregando peso, etc.

Como sou uma pessoa muito ansiosa e absurdamente energética, as aulas de vôlei serviam quase como que uma terapia para mim. Eu fazia o treino de vôlei, depois ia ao vestiário tomar banho e esperava a minha mãe sair do trabalho na Eletrosul na lanchonete da Elase, comendo um misto-quente com Pureza enquanto fazia os deveres da escola.

O Maneca foi meu professor de vôlei até os meus 11 anos, nisso ele foi substituído pelo Marcelo. Da escolinha, passei para o nível pré-mirim, o que exigia um comprometimento muito maior da nossa parte. Nessa fase, o professor já não mais fazia piadinhas conosco quando a gente errava. “Sua pata choca, presta atenção!”, era essa a forma “carinhosa” que o professor nos tratava. Ele deu posições para cada uma de nós, sendo que eu acabei virando atacante de meio (mesmo querendo muito ser levantadora e tendo aptidão para tal). O preparamento físico ficou muito mais difícil. As cargas dos pesos mudaram, os circuitos eram intermináveis e quase todas as aulas, uma das meninas saia da quadra chorando.

O Marcelo debochava do nosso peso. Quando voltávamos de férias, sempre ficava apertando a barriga das atletas para “procurar banhas” – vejam que nós tínhamos apenas 11 para 12 anos de idade! Certa vez, durante o preparo físico, eu estava fazendo treino de pernas. O Marcelo chegou perto de mim e deu um tapa na minha coxa tão forte que as marcas dos dedos dele ficaram estampadas em vermelho. “Ta ficando forte, ein pata choca”, dizia ele sorrindo para mim.

Nós ganhamos um patrocínio da concessionária Trirradial, que nos deu camisetas de treino. Nos dias quentes, a camiseta era insuportável e uma das meninas, certo dia, tirou a camiseta e ficou só com uma blusinha de alcinha. Pronto, só faltou o Marcelo babar em cima da MENINA que, recém entrando na puberdade, estava iniciando o crescimento dos seios.

Quando estava com 12 para 13 anos, passei para a fase mirim e quem assumiu os treinos foi o Rodrigo. Esse cara é uma daquelas pessoas que jamais esquecerei. Ele era tão nojento, tão escroto que fazia o Marcelo parecer gente boa. O Rodrigo devia ter uns 20 anos e namorava uma menina do time infanto, que deveria ter no máximo 15 anos. Ele exagerava na dose dos treinos conosco, principalmente no ataque/defesa. Rodrigo “cortava” a bola para que nós defendêssemos com tanta força, que meus braços começaram a ter marcas permanentes da bola de vôlei.

Certo dia, durante o treino de ataque e defesa, Rodrigo estava nos ensinando a “cair” de uma forma que a gente não se machucasse. Naquele dia ele me pegou para Cristo. Não consegui defender de primeira, então, como o escroto que era, mandou todas as meninas sentarem e me usou literalmente como saco de pancadas. Ele ia sacando as bolas em cima de mim com toda a força. Meus olhos foram enchendo de lágrimas. As meninas, que a princípio estavam dispersas, ficaram fixas olhando para mim chocadas com a atitude agressiva do treinador. “Você é uma atleta ou uma pata choca?”, berrava ele para mim. Quando eu já não conseguia contar as lágrimas, Rodrigo jogou uma bola para mim tão sorrateira, que tive um espasmo na coluna na hora de cair para defender.

O treino se deu por encerrado minutos depois, com o Rodrigo saindo indignado da quadra me xingando, enquanto as meninas vinham checar se eu estava bem. Quando encontrei minha mãe naquele dia, disse que queria sair do vôlei, pois a prática tinha deixado de ser prazerosa para se tornar um tormento desnecessário na minha vida. Na frente da minha mãe, Rodrigo era uma flor de pessoa e foi logo perguntando se eu tinha “melhorado da coluna” e ainda me teceu diversos elogios.

Hoje, em retrospecto, vejo que esses treinadores eram homens frustrados que abusavam de nós, meninas entre 11 e 13 anos. Pensa só se isso seria permitido hoje em dia em qualquer clube? Esses homens extrapolaram a linha tênue entre a disciplina e o abuso de poder em uma época em que não existia feminismo, não existia denúncia de assédio, em que o treinador bater na coxa da aluna e xingá-la era normal. Tempos depois descobri que o Rodrigo tinha virado professor da Unisul e havia sido demitido por má conduta em sala de aula. Pois é, o mundo dá voltas…. Depois que saí do vôlei, entrei para o mundo da dança, que foi a melhor coisa que fiz na vida. Mas isso é papo para outra coluna.