13.4 C
Itapema
sexta-feira, julho 3, 2026
mais
    InícioSanta CatarinaColuna Pelo EstadoPelo Estado Entrevista 12/04: Dagnor Schneider, presidente da Fetrancesc

    Pelo Estado Entrevista 12/04: Dagnor Schneider, presidente da Fetrancesc

    Em:

    Em Destaque

    Pelo Estado 03/07: Plano de governo de João Rodrigues mira em Goiás

    O ex-prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), esteve esta...

    Bombinhas abre inscrições para transporte universitário

    Programa oferece 440 vagas para estudantes que frequentam cursos...

    “Santa Catarina enfrenta gargalos logísticos apesar da força econômica, avalia presidente da Fetrancesc”

    O crescimento da frota e a falta de investimentos em infraestrutura rodoviária têm ampliado os desafios logísticos de Santa Catarina. Em entrevista, o presidente da Fetrancesc, Dagnor Schneider, analisa os dados levantados pelo Observatório da entidade e comenta os impactos na economia, na segurança viária e na competitividade do Estado.

    Pelo Estado – Como Santa Catarina se posiciona hoje no cenário nacional do transporte de cargas?
    Dagnor Schneider – Santa Catarina hoje tem a sexta maior frota de veículos do país, com cerca de 6,7 milhões de unidades, segundo dados do Detran compilados pelo Observatório da Fetrancesc. Quando olhamos especificamente para o transporte de carga, o Estado ocupa posição ainda mais relevante: temos a quinta maior frota de veículos pesados do Brasil (caminhão + caminhão-trator), com mais de 259 mil unidades. Além disso, temos um país rodoviarista, ou seja, 65% de tudo o que é transportado é feito por um caminhão.

    Esses números refletem o dinamismo da economia catarinense, que é muito baseada na indústria, no agronegócio e nas exportações.

    Pelo Estado – Esse crescimento foi acompanhado por investimentos em infraestrutura rodoviária?

    Dagnor Schneider – Infelizmente não na mesma proporção. O crescimento da frota e da produção não foi acompanhado pela ampliação da malha viária. Santa Catarina tem, aproximadamente, sete mil quilômetros de rodovias pavimentadas. O que aponta uma alta densidade de frota. Para cada quilômetro pavimentado, são 934 veículos. Enquanto isso, o Paraná, que é um estado um pouco maior que o nosso, tem mais de 19 mil quilômetros de malha pavimentada, com uma densidade de 492 veículos por quilômetro. Ou seja, para Santa Catarina atingir a mesma densidade rodoviária do Paraná, seria necessário construir mais 2.300 quilômetros de rodovias. Isso evidencia uma diferença estrutural importante entre os estados do Sul e ajuda a explicar parte das dificuldades logísticas que enfrentamos.

    Pelo Estado – Quais são os impactos diretos desse déficit de infraestrutura para o transporte de cargas? 

    Dagnor Schneider – O déficit impacta diretamente a logística e os custos operacionais. Com poucas alternativas viárias, o fluxo acaba concentrado em alguns corredores estratégicos. Isso acelera o desgaste do pavimento, aumenta congestionamentos, e amplia os riscos de acidentes e mortes nas rodovias. Além disso, afeta a previsibilidade das operações logísticas, algo fundamental para a competitividade das empresas.

    Pelo Estado – Os dados de segurança viária também apontam um cenário preocupante. O que eles revelam? 

    Dagnor Schneider – Quando analisamos os números da Polícia Rodoviária Federal de janeiro a dezembro de 2025, Santa Catarina apresenta índices significativamente superiores à média nacional em número de acidentes quando considerados os dados por 100 quilômetros de rodovia federal. A taxa de acidentes no Estado é 215% maior do que a média do país. O número de feridos é 212% maior, e o de óbitos é 100% superior.

    Pelo Estado – O que explica índices tão elevados? 

    Dagnor Schneider – Esses números indicam que o problema não está apenas no volume de tráfego. Existe uma combinação de fatores: alta densidade de veículos, infraestrutura limitada e trechos críticos com histórico de risco. Quando esses elementos se somam, o resultado é um aumento significativo nos registros de acidentes e no número de vidas que se perdem.

    Pelo Estado – Além do impacto social, quais são os custos econômicos dessa situação?

    Dagnor Schneider – Os acidentes geram custos muito elevados. Um levantamento baseado na Pesquisa CNT de Rodovias 2025, cruzado com dados da PRF e sistematizado pelo Observatório Fetrancesc, mostra que os acidentes rodoviários em Santa Catarina geraram um custo superior a 3 bilhões de reais em 2025. Estamos falando de danos materiais, perda de carga, despesas hospitalares, afastamento de trabalhadores, aumento no valor dos seguros e elevação do custo do frete. Tudo isso impacta diretamente a cadeia produtiva e, no fim das contas, chega ao consumidor.

    Pelo Estado – Alguns dos trechos mais perigosos do país estão em Santa Catarina. Onde se concentram esses pontos críticos?

    Dagnor Schneider – Considerando o número de acidentes, dos dez trechos mais perigosos do Brasil em rodovias federais, quatro estão em Santa Catarina, todos na BR-101 Norte. Os dados da PRF mostram que o trecho entre os quilômetros 200 e 210, em São José, na Grande Florianópolis, foi o mais perigoso do país em 2025, com 575 acidentes e dez mortes. Na terceira posição aparece o trecho entre os quilômetros 210 e 220, com 341 acidentes. Outros dois pontos críticos ficam entre os quilômetros 130 e 140, em Balneário Camboriú, com 279 ocorrências, e entre os quilômetros 190 e 200, com 261 acidentes.

    Pelo Estado – O que esses dados revelam sobre a situação da BR-101?

    Dagnor Schneider – Nos anos de 2023 e 2024, a pesquisa Viagem Segura, da Confederação Nacional do Transporte (CNT), já havia apontado o trecho entre os quilômetros 200 e 210 da BR-101 como o mais perigoso do Brasil em número de acidentes, reforçando que o problema é recorrente e estrutural. A rodovia colapsou, chegou ao seu limite há muito tempo. Precisamos de investimentos recorrentes e robustos para ampliar e melhorar a nossa malha rodoviária ou, infelizmente, vamos continuar pagando essa conta e perdendo vidas.

    Esse problema também reflete um desafio nacional? Sem dúvida. Apenas nas rodovias federais brasileiras, mais de seis mil pessoas perderam a vida em acidentes em 2025, segundo dados da PRF. Isso mostra que a segurança viária precisa ser tratada como uma prioridade nacional.

    Pelo Estado – Outro ponto levantado pelo estudo envolve a relação entre arrecadação e repasses federais. Qual é o cenário?

    Dagnor Schneider – Santa Catarina é um dos estados que mais arrecadam para a União. No histórico de 2021 a 2025, o estado contribuiu com cerca de R$ 590 bilhões para a União, mas recebeu apenas R$ 83.4 bilhões em repasses, o equivalente a 14% do total arrecadado. O contraste é ainda maior quando comparado a Estados do nordeste, como, por exemplo, o Maranhão, que arrecadou R$ 66.8 bilhões e recebeu R$ 171.3 bilhões, ou seja, 256.4% do que contribuiu.

    Pelo Estado – Como essa diferença impacta o desenvolvimento da infraestrutura? 

    Dagnor Schneider – Santa Catarina tem frota crescente, malha rodoviária limitada e índices de acidentes muito acima da média nacional. O desafio catarinense vai além do gargalo logístico. Trata-se de uma questão de perda de vidas e competitividade. Sem um repasse proporcional, o déficit em obras estruturantes tende a se ampliar.

    Pelo Estado – Qual é o principal alerta que a Fetrancesc faz a partir desses dados?

    Dagnor Schneider – O investimento em infraestrutura rodoviária não pode ser tratado apenas como uma demanda do setor de transporte, mas como uma prioridade estratégica para a competitividade econômica do Estado e do país.

    Sem aportes robustos e contínuos, seguimos enfrentando consequências graves, como a perda de vidas, queda de produtividade, congestionamentos recorrentes e aumento dos custos para o setor, que já lida com uma série de desafios, como o roubo de cargas, a precariedade da malha rodoviária, a alta do diesel e a necessidade constante de reequilíbrio do frete. Negligenciar a infraestrutura é comprometer o futuro econômico e logístico do Estado.

    Clique aqui para ver a coluna Pelo Estado PE_entrevista 12-04-2026

    Produção e edição
    Por Celina Sales para APJ/SC e ADI/SC
    Contato: peloestado@gmail.com

    Cidades