Coluna Helle Borges

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Barbárie

A que ponto chegamos? Se confirmada as razões que levaram a morte do militante do PT Antonio Carlos Rodrigues Furtado, de 61 anos de idade no município de Balneário Camboriú, estaremos diante de um atentado à liberdade política e de expressão. Cacau, como era conhecido por amigos, foi espancado e veio a óbito após discussão com um homem de 44 anos, supostamente bolsonarista. O crime ocorreu na Avenida Alvin Bauer, no Centro de Balneário Camboriú, no fim da tarde do último dia 27. O relatório divulgado pela PM afirma que Furtado e o agressor discutiram. Ele se afastou e foi atacado. As agressões continuaram mesmo com a vítima caída ao chão. Cacau conseguiu levantar-se, pediu que o agressor parasse, mas não adiantou. Caiu novamente – desta vez, vítima de uma parada cardíaca.  O delegado Aderlan Camargo, responsável pelo caso, afastou por hora essa hipótese. Afirmou, que testemunhas ouvidas na delegacia disseram que a discussão teria sido motivada “por uma dívida”, mas não entrou em detalhes. Segundo ele, o agressor teria apresentado versões conflitantes à PM. Ele se negou a prestar depoimento na delegacia – permaneceu em silêncio. Chama atenção as versões conflitantes da PM e da Policia Civil. Este vaivém de versões motivou o PDT a acompanhar o caso de perto. O advogado Alex Casado disse que a vítima não tinha nenhuma dívida com o agressor, e afirmou estar convicto de que se trata de um crime com conotação política. O PDT vislumbra que há um esforço para proteger o bolsonarismo, buscando, por outro lado, atingir a imagem da vítima. O próprio assassino reconheceu inicialmente, para a polícia, que esse (política) foi o motivo do crime – avaliou. O advogado deve acompanhar o inquérito e o andamento do processo, após a conclusão das investigações. Direta ou indiretamente, a violência já é parte de nosso cotidiano e não distingue gênero, credo ou posição social. Ela nos é imposta sob as mais diversas formas e, quando não somos as vítimas, somos as testemunhas. Dói saber que política virou em alguns casos uma sedação coletiva, onde nós, os eleitores, deixamos de enxergar o universo real e vislumbramos universos paralelos de políticos heróis, acima do bem e do mal, que nos livrarão do Caos. Grande Sandice. Os idiotas, em algumas ocasiões da história, se convencem da “genialidade” de sua idiotia e, por isso, se envaidecem dela. Tornam-se pavões da burrice, exibindo-a como se fosse a coisa mais bonita e rara do mundo. Quando digo burrice, não estou falando de ignorância, mas de burrice mesmo, de falta de capacidade de ler e entender o mundo, de aprender, contextualizar, de abstrair e fazer correlações entre as ideias e o mundo real, de pensar estrategicamente o jogo de poder nacional e mundial, sabendo calcular bem a distância entre o que se quer e o que se pode e planejar o caminho a seguir para se chegar mais próximo dos objetivos, se adaptando às constantes imprevisibilidades da política. O brasileiro em geral está mais politizado, mas falta ensino sobre política. A sociedade brasileira faz política do jeito que dá, do jeito que ela recebe, do jeito que ela tem essa percepção, por símbolos, por associações imediatas, por muitos preconceitos, por elementos rasteiros, pela verve do humor e não é o humor que é sarcástico com o poder, mas o humor que também humilha, que reforça a humilhação ao humilhado. Dentro deste cenário a política precisa seja debatida também dentro da sala de aula. Não existe escola neutra. Seria bom que as escolas não fossem partidárias, mas elas sempre serão políticas. Não se pode demonizar a política. A política não é administração do mal, mas é a garantia do contrato social do bem. Demonizar a política como instrumento de resolução de um problema é um problema. Não existe neutralidade. O que deve-se garantir sempre é a pluralidade da escola, a pluralidade de opções, mas conviver com o diferente e o contraditório é um desafio que a maior parte das pessoas não enfrenta bem. A construção da democracia em nosso país, ainda que limitada, é o produto de anos de lutas que custaram vidas e um intenso trabalho de mobilização pelo mínimo que a humanidade pode exigir de si mesma: o respeito às diferenças e à diversidade de opiniões. O respeito e a possibilidade de escolher governos não é o resultado da seleção natural da humanidade, na verdade, é fruto de luta política realizada há mais de dois mil anos.