Coluna Juquita Carvalho 07/03/2019

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O Fim do Mundo

Talvez a leitora e leitor ainda não saibam, mas o mundo está próximo de acabar. O fim de tudo, o ocaso dessas nossas vidinhas fugazes e insignificantes vem chegando a galope em nossa direção. E não queria ser eu o porta-voz de tão nefasta notícia. Então criatura, preparas o teu espírito para enfrentares o apocalipse.

Vais ajeitando as tuas coisas, tratas de fazer tuas despedidas, pedes perdão pelos teus erros miseráveis, abraças os teus amores, fazes as pazes com os teus inimigos cometes os abusos prazerosos que a vergonha afastou de ti a gana de cometê-los, satisfaz os teus desejos reprimidos, deixas o teu sentimento extravasar, amas que nem louco, corres ao encontro daquela paixão que até hoje se encontra inerte só no letárgico estado platônico, bebe os tragos fortes que não bebeste e declara em voz alta as frases bonitas que nunca tiveste a coragem de pronunciar, transformas os dias que te restam na anarquia sufocada, porque, definitivamente, o mundo está prestes a acabar. Ah, e não te pintas de covarde, chorando choramingão no momento da tua última agonia. Deve tu saber ser macho no instante da tua morte. Que ela, a sinistra, além do teu corpo imprestável, não encontre covardia. Resignado, aceitas o teu desfecho, afinal, todos antes de nós também já morreram. Então, lidas com valentia na hora da tua vez.

Porém essa hecatombe não será coletiva. Não morreremos todos ao mesmo tempo – pelo menos, ainda não. Por enquanto o extermínio continuará sendo de madeira individual.

E não inventas, tu que está te aproximando do buraco da tua sepultura, pois não inventas de acreditar nessa ladainha, nesse discurso vazio que a tua alma sobreviverá lá nesse ilusório paraíso – essa invenção criada nos escritórios dessas todas religiões de araque. Aliás, essa conversa, que é um porre, sai dos lábios daqueles que não se conformam que tudo, definitivamente tudo se termina no momento da nossa última respiração. Inventaram essa lenga-lenga porque imaginam que o ser humano, dotado da racionalidade, não merece o seu espírito ter o mesmo final dos cachorros, dos gatos, das vacas e das ovelhas; do pardal e do sabiá, da barata e do mosquito, da orquídea, da samambaia, do cinamomo e da pitangueira quando morrem. Ou existem outros céus para esses outros seres vivos?

Assim, mortal pessoa, vais te ajeitando, vais aceitando, vais te conformando com o teu destino, já que, depois de morto, antes de virar adubo, servirão tuas carnes, cartilagens, tripas, membranas e graxas podres de alimento para engordar aqueles vermes pavorosos.

E nada de vida após a morte.
Portanto, tratas de viver com ousadia e coragem que o teu fim de mundo vem chegando a passos largos para encontrar a tua pessoa.
Desse modo, está publicada a notícia – cumpri com a minha obrigação. Avisei os distraídos e os religiosos que ainda pagam bom dinheiro no afã de possuírem uma fofa poltrona no tal do paraíso.
Acaba o mundo, também para o mosquito que voa, quando a forte palmada o arrebenta contra a parede.