Coluna Juquita Carvalho 10/04/2019

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A morte que anda sempre por aí,
misturada no ar que respiramos
mais uma vez em porto alegre

Na noite anterior eu sentia um vazio na alma, uma falta de entusiasmo, uma vontade de querer sumir deste mundo que fui até o boteco da esquina e bebi muita cerveja com uísque sem gelo. E ali na mesa eu dizia para mim mesmo: “vida de merda, merda de vida.” Completamente encharcado de álcool saí em direção ao apartamento. Nem sentia os pés na calçada e a cabeça girava e os postes de luz dançavam na minha frente. Deitei no sofá da sala e dormi com roupa e tudo – nem os sapatos tirei.
Acordei no meio daquela manhã suando frio. Meu corpo estava todo molhado assim como os cabelos, a testa, a barba e a nuca. Levantei tropeçando e caminhei até o banheiro. Lavei o rosto com água fria e quando encontrei o espelho não consegui enxergar a minha fisionomia. Estava tudo embaralhado; círculos e círculos e mais círculos giravam enlouquecidos e os meus olhos se turvaram e fiquei tonto, o queixo tremeu e o lábio inferior se amorteceu. Gritei: “vou morrer. Chegou meu fim.”
Assim, enlouquecido abri a porta do apartamento. Na rua ataquei um taxi e disse para o motorista:
“rápido, me leva para o Pronto Socorro, antes que eu morra aqui dentro desta bosta.”
Me colocaram numa maca e me levaram até um grande salão cheio de outras macas. Era o setor de emergência do hospital. Um sujeito todo cortado de faca gritava sem parar. Um outro que levou vários tiros urrava desesperado. Uma mulher ainda nova gemia com a marca roxa no pescoço da corda com a qual tentou o suicídio e mais uns 15 ou 20 berrando de dor devido a fraturas nos ossos, vítimas de todos os acidentes possíveis de acontecer.

O médico mandou a enfermeira me fazer engolir 2 ou 3 comprimidos com água. Dormi, que sequer lembro quanto tempo dormi. De repente um homem com 50 anos, na maca ao lado da minha, disse: “era um enfarto. Acho que consegui escapar” sentei na maca e todos aqueles que gritavam de dor estavam quietos, dormindo, sedados e ali naquela sala de emergência, a paz, enfim, havia retornado.
“Você pode ir embora”, me disse o médico. “Mas não era um AVC, um derrame cerebral, isso que eu tinha?” perguntei. Ele fez um sorrisinho e comentou com a enfermeira: “esses caras que enchem a cara de trago e depois de ressaca, pensam que irão morrer.”
Fiquei em pé, olhei aquela gente deitada naquelas macas e disse para o homem de 50 anos que se dizia infartado: “até logo, camarada. É que às vezes conseguimos enganar a morte. Ela chega, entra no nosso corpo, mas não sei bem de que jeito, a gente agarra a morte pelos cabelos e arranca essa porcaria de dentro do nosso corpo – ela que vá cumprir o seu ofício num outro coitado qualquer.”
O homem infartado sorriu.

Antes que eu saísse do salão, uma enfermeira avisou a sua colega:
“vem aqui me ajudar que este foi todo cortado de faca, acabou de morrer.”
Ainda eu disse para o homem infartado: “viu só. Essa morte miserável saiu de um de nós para atacar aquele pobre infeliz. A morte está sempre por aí, nos rondando, nos cheirando, nos testando. A morte, essa entidade invisível que anda no nosso entorno, sempre e sempre, misturada no ar que respiramos.”
Embora mentindo, naquele dia, prometi que nunca mais beberia.