Coluna Juquita Carvalho 14/03/2019

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Macarronada, Vinho Tinto,
e um Amor Inesperado

A noite caiu chuvosa naquele tenebroso mês de agosto em Porto Alegre. A moça bateu 5 pancadas na porta do apartamento do velho prédio na rua Bento Martins esquina com a Andradas. Ela que atendia por Evelin levantou a bainha da saia até o pescoço e mostrou todo o esplendor de um corpo jovem com recém 23 anos. A Evelin disse, provocante: “sei que gosta de mulher. Estou precisando de grana. Me alcança uma nota de 100 e outra de 50 e pode me usar à vontade. Entrou, ficou completamente nua e dançou e cantou e rebolou e alisava suas coxas, seios e sexo naquele bailado da sedução. Se não fosse por dinheiro, seria uma homenagem ou uma provocação ou apenas um convite.
Morena alta, falsa-magra, lábios úmidos e língua ligeira – uma tentação de mulher –, uma bela flor desabrochando.
Vamos com mais calma, pega uma toalha lá no banheiro e usa como abrigo.”
Tenho aqui 4 garrafas de vinho bom e sei fazer uma ótima macarronada com molho vermelho e tem sorvete de chocolate na parte de cima da geladeira.
A Evelin voltou do banheiro enrolada na toalha, sentou com as pernas abertas na poltrona forrada com plástico azul, pediu um cigarro aceso. Bebeu de uma só vez o copo de vinho tinto e murmurou, como se fosse outra pessoa: “adoro vinho tinto e também sou apaixonada por macarronada com molho vermelho.”
Vieram outras conversas e ficou pronta a iguaria. Ela comeu com o prato em cima de um banquinho no meio das suas pernas. E tomou mais vinho, vários copos de vinho. De repente os seus olhos se encheram de água, ela soluçou, enxugou as lágrimas com as costas da mão esquerda e deixou sair a frase com as palavras também molhadas de lágrimas: “só a minha mãe fazia uma macarronada com molho vermelho igual a essa que você fez. Minha mãe que morreu ainda nova e me deixou perdida neste mundo desgraçado.” Comia, bebia e chorava que era uma atração ela conseguir realizar essas 3 tarefas ao mesmo tempo. A seguir parou de chorar, raspou o prato e não quis mais, e pediu vinho, vinho, o vinho, o apaziguador das almas atormentadas.
No meio da última garrafa de vinho, a Evelin disse meiga, amorosa, com ternura na voz: “esqueça aquelas 150 pratas. Não quero e não posso me vender para você. Essa grana eu arrumo com um trouxa, o primeiro trouxa que aparecer na minha frente. Hoje, aqui com você eu vou fazer amor, um amor que está me fazendo falta fazer.”
Foi uma noite inesquecível aquela. Receber um ato de amor que de instantâneo, no inesperado ser criou, isso é coisa que até parece mentira, ainda mais vindo de alguém, de uma moça que vive da prostituição.
Dormiu enroscada nos braços do Joca, com as pernas entrelaçadas, com os lábios grudados na boca do rapaz. No meio da manhã seguinte ela pulou da cama, lavou o rosto, se vestiu com rapidez e falou que precisava arrumar aquelas 150 pratas com um trouxa qualquer. O Joca disse: “assim, Evelin, vou te emprestar essa grana…” – que foi logo interrompido: “não, entre nós, nada de dinheiro. Só carinho, só amor e vinho carbenet e macarronada com molho vermelho.”
Durante quase 2 anos, à noite, duas ou 3 ou uma vez por semana, ela descia do quinto andar até o apartamento do Joca, de banho tomado, perfumadinha, pele fresca, usando um vestidinho de seda sem calcinha, batia 5 pancadas na porta e pedia sempre com as pernas abertas sentada na poltrona forrada com plástico azul:
Joca, meu amor, faz macarronada com molho vermelho e me traz um cigarro aceso e um copo de vinho tinto, que antes da gente fazer amor, quero ainda sorvete de chocolate.”
Agora mesmo, queria” – o Joca respondia.
E às vezes chorava lembrando da mãe, com as duas mãos escondendo o rosto, cravando as pontas agudas dos cotovelos nas quinas de cima daqueles joelhos – que eram duas medalhas de ouro, os joelhos da Evelin – ela, de alma e de corpo, um colosso de mulher.