Coluna Juquita Carvalho 18/03/2019

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A Sombra da Nuvem que
Encobriu os Sonhos Teus

Você, amada, mulher de todos os desejos meus, de todos os sonhos que sonhei. Você, querida, que é tão linda de corpo e proprietária de mil escapatórias.
Você que me vê escrevendo desde o início da madrugada e, assim que sai da cama, já com o dia amanhecendo, me pergunta: “como pode alguém fazer isso que você faz, todos os dias – de onde vem tantas ideias?

Respondo: “é, que se eu não escrever, meu amor, morro, e fico morto tal todo esse povo que passa morto diante de ti, de nós, pelas calçadas da cidade.”

E eu disse para ela, naquela madrugada triste: “acontece, amada minha, que você não lutou até o fim das tuas forças pelos sonhos teus. Você veio influenciada de uma idiota classe média alta, que pensam vocês, que o trabalho, o serviço, o talento, isso são coisas de menos importância. Vocês que são tão arrogantes que sequer o lixo das suas casas vocês reciclam. Vocês só pensam no dinheiro, fêmea bonita. Vocês se esquecem que nós, a humanidade, somos um todo só, um único bloco, onde, se um de nós falhar, falhamos todos nós. Você que deixou de lado os teus primeiros ideais.”

“– E os poemas que você parou de fazer; já faz 10 anos que você não escreve mais.”

“– E da beleza do beija-flor beijando a flor, que lá atrás você tanto apreciava, e que agora, nem mais enxerga o beija-flor?

“– E dos tesouros escondidos nas nossas almas, aqueles ainda não desvendados: como você dizia, por que nos apaixonamos?

“– E das viagens com mochila nas costas que você tanto planejou – e não viajou. E do seu sonho dourado de ser a poeta, a porta-voz daqueles que não têm voz. E dos teus gritos de protesto contra as injustiças, e do pavor estampado nos teus lábios. E nos teus olhos diante das mortes, dos assassinatos dos nossos negrinhos e dos nossos mulatinhos das nossas favelas, vai, me diz, querida, onde foram parar?

Você que casou com um sujeitinho medíocre, um horrível ser humano fanático por religião, e foi você, se apagando, se apagando, se apagando como pessoa – a pessoa idealista e revolucionária morreu. Morreu aquela que você queria ser quando você caiu nas páginas do livro de capa preta. É que veio lá de cima, a sombra de uma nuvem que encobriu os sonhos teus.