Coluna Juquita Carvalho 26/03/2019

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O pedaço mais
Importante do coração

Guri criado no campo, quando vira homem na cidade grande, pedaço importante do seu coração ainda continua morando naquele vasto oceano de capim. Menino, eu tinha o meu Rio Irapuá, um açude, lagoas e um mato fácil de se perder naquele labirinto de árvores de todas as espécies. E a lua e o sol que também eram meus. E as várzeas a perder de vista e um grande arvoredo com todas as frutas da região. E um casarão e um galpão com o fogo de chão e os causos que ali eu escutava. E o gado e os cavalos e as ovelhas e os cachorros e os gatos e gente sempre circulando, envolvidos nos seus afazeres. Se naquela época alguém me perguntasse o que eu entendia por felicidade, na ponta da língua, de pronto responderia: a felicidade é tudo isso que eu tenho aqui.
Veio a barba na cara e morei em Porto Alegre, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba, Porto Alegre, Rio de Janeiro e andei neste país inteiro, retornei a Porto alegre e depois me fixei aqui em Itapema. Embora vivendo nesses vários lugares, aquele pedaço do meu coração não se urbanizou; continuou rural aquele pedaço do meu coração. E em cada apartamento ou casa em que morei, tratei de plantar árvores, aquelas que eu convivia quando guri. Plantei limas da persa, pitangueiras, goiabeiras, ameixeiras, laranjeiras e bergamoteiras e temperos verdes e outros arbustos de aparente falta de serventia. Era aquele pedaço do meu coração pedindo, de volta, aqueles enfeites da natureza que fizeram parte da sua inaugural existência.
Atualmente moro no centro de Itapema num simples apartamento de 2 dormitórios. É um prédio pequeno, que minhas exigências modestas não necessitam de maior espaço. Na frente da sala há uma reduzida sacada com no máximo 9m². E tem uma mesinha de plástico branco, dessas que existem nos botecos brasileiros. Escrevo nessa mesinha. Nela permaneço 3 ou 4 ou 5 horas por dia escrevendo contos e crônicas, frases e demais pensamentos que me vêm na cabeça.
Mas logo que cheguei de mudança neste apartamentinho, aquele pedaço do meu coração de guri criado no campo, exigiu para o seu conforto, que aqui eu retratasse, um cantinho da sua antiga memória.
Então, em torno da mesinha de plástico, nessa minúscula sacada, tenho nos vasos que plantei, uma pitangueira com um metro e meio de altura, uma pitangueirinha ainda filhote, um pé de jabuticaba que teima em não crescer, uma ameixeira pequena e um coqueiro cabeludo e dois pés de manjericão e a gata Manuela que vive enroscada nas minhas pernas ou sentada na frente da folha de papel que estou lidando.
Eu já com a barba e os cabelos brancos que muito vivi, que muito penso que sei, que muito escrevi – que da vida muito participei – que às vezes acho que me esgotei. No entanto, aquele pedaço do meu coração de guri campesino, quando me obriga a ter perto de si aquelas plantinhas do seu tempo, isso me enche de energia e fico contente e me vejo quase feliz. Então eu digo para o guri plantador de arbustos e árvores: enquanto essa parte do meu coração continuar otimista, então, prorroguem a data da minha morte, que me vou rumo a maior de todas as longevidades.
Morremos no dia que em nós deixa de existir a criança que fomos lá no início das nossas vidas. Quando morre o pedaço mais importante do nosso coração.