Coluna Vanessa Brasiliense Barcelos 07/03/2019

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Ser mulher dói
Hoje em dia se fala tanto do “Sagrado Feminino”, que nada mais é que um estilo de vida que oferece ensinamentos sobre o corpo, emocional e ciclos da mulher. Enquanto vejo muitas pessoas desfrutando desse Sagrado, vejo tantas outras atacando severamente essa espécie de nova ideologia, que visa a sua própria preservação, sem ferir a liberdade de ninguém. A mulher é complexa da cabeça aos pés, das unhas aos cabelos, das tripas ao coração. A mulher é um ser magnífico, forte e indestrutível, que precisa buscar seu lugar na sociedade, pois nada lhe é entregue de bandeja. A mulher é um ser incrível, mas ser mulher….. Dói.

Dói quando vemos homens, movidos por seus próprios interesses, determinarem o que é correto para as nossas vidas. Dói sempre que precisamos pedir, por favor, ao nosso parceiro que use preservativo – quando muitos deles não querem usar. Dói quando, no momento do descuido, precisamos tomar uma “pílula do dia seguinte”, que desregula totalmente o nosso ciclo mensal e traz efeitos colaterais horríveis.

Dói muito ser vítima de um abuso sexual e engravidar. Dói não ter o poder da escolha pelo próprio corpo. Dói conviver com as amarras religiosas o moralistas de tantos que colocam a culpa da gravidez indesejada única e exclusivamente em cima da mulher. E dói muito abortar! Dói tanto que há quem se traumatize pelo resto da vida. NINGUÉM aborta porque quer, é uma questão de NECESSIDADE. E quem critica isso… simplesmente desconhece essa necessidade.

E dói tanto ver o descaso com as meninas do nosso Brasil. Afinal, existem engravatados que são contra o aborto, mas não desenvolvem nenhum tipo de política pública para as crianças que já existem e estão à deriva país afora. Milhares de crianças nascem diariamente em condições precárias; mas, para “eles” o problema é o aborto, o anticoncepcional e a pílula do dia seguinte. Ninguém se preocupa em dar o mínimo de dignidade para essas crianças e para essas mães. Só existem dedos para apontar, e não mãos para acalentar o sofrimento.

E ser mãe é tão lindo! É a maior dádiva que alguém pode receber! Mas ser mãe dói muito….. Dói tanto porque dói por dois. Dói criar uma crianças e, apenas alguns meses depois do nascimento, ter de deixá-la nas mãos de outra pessoa para cuidar. Dói voltar ao mercado de trabalho e perceber que seu cargo jamais vai progredir, porque você teve que se afastar da empresa pelo motivo mais nobre do mundo. Mas também dói muito abandonar o mercado de trabalho e ficar em casa só cuidando da criança, deixando seu diploma e suas aptidões todas guardadas na gaveta.

Como disse o Papa Francisco: “Não existe ‘mãe solteira’, porque mãe não é estado civil”. No entanto existem tantas destas no nosso Brasil, que novamente são julgadas pelo seu “descuido”. A carga da maternidade não é a mesma da paternidade. Se a mulher abandona o filho com o pai, será crucificada para sempre. Se o homem abandona o filho com a mãe, é só mais um dos 5,5 milhões de homens que nem sequer registraram seus filhos no momento do nascimento. Isso sem falar dos pais que há anos não pagam pensão, mas via facebook, são os melhores pais do mundo.

Dói ser mulher independe. Mulheres que não querem casar e nem ter filhos são as “encalhadas” da sociedade. Somos de uma geração de mulheres que acordou para os malefícios do machismo. Porém, convivemos com uma geração de homens provindos de um machismo estrutural absurdo. “Se a mulher trai o homem, é puta. Se o homem trai a mulher, é porque é homem”. Hoje em dia, casamento não é mais sinônimo de felicidade. Ter filhos não é mais sinônimo de missão cumprida. Nós somos muito mais do que isso, e por isso, muitas de nós preferem sim ficar sozinhas. Afinal, antes só do que mal acompanhada.

Mas o que mais dói na sociedade atual é perceber como ainda existem mulheres machistas, que acham que esse marasmo em que vivem na sua “família tradicional brasileira” é que é o correto. Felicidade é poder de escolha! É cada uma de nós ter o direito de vestir, dizer e fazer o que bem entender – livres de qualquer julgamento. O falso moralismo está impregnado na nossa sociedade. Prova disso são as mulheres que elegem homens que declaram abertamente que vão legislar contra os seus direitos. E elas, tão inocentes e desinformadas, aplaudem essas atrocidades e julgam erradas as mulheres libertárias e conscientes.

Nesse dia 08 de março de 2019, desejo que todas as mulheres tenham liberdade de escolha. Que possam ser o que quiserem sem ter que atender aos desejos ou expectativas de ninguém. Desejo também, que as pessoas compreendam que esta data representa uma luta histórica pelos nossos direitos e é de extrema importância para a conscientização coletiva. Homem: não dê flores e chocolates para a sua mulher. Seja um bom parceiro e respeite as decisões dessa guerreira que está ao seu lado todos os dias! E lembre-se, o feminismo prega os direitos iguais, não uma ideologia formatada para destruir os homens. Fiquem tranquilos, não vamos deixar a sociedade autoritária, pois odiamos tudo isso que vocês fizeram conosco (salvo às exceções de muitos homens que conheço que já abriram a cabeça e percebem que uma mulher ciente de seus direitos é realmente mais livre e mais feliz). Feliz Dia Internacional da Mulher para vocês, guerreiras. Juntas, somos mais fortes <3

#NinguémSoltaaMãodeNinguém