Coluna Vanessa Brasiliense Barcelos 11/04/2019

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Nunca antes, sempre ali

Lá pelos idos de 2014, um amigo meu fez um comentário tão alienado que até hoje não sei como teve coragem de dizê-lo em voz alta: Nunca teve tanto gay no Brasil como está tendo agora – disse o cidadão. Respondi da forma mais lógica e racional que consegui: Sempre houveram muitos gays, amigo, a diferença é que hoje eles saíram do armário e não estão mais escondidos atrás de esposas de fachada.

Meu amigo ficou perplexo e pensativo com minha resposta, revendo seus conceitos e pensando que, bobear, eu realmente tinha razão. Essa mesma sensação que meu amigo teve em relação aos homossexuais se repete em diversas instâncias da sociedade. Por exemplo, durante a minha infância e adolescência, a palavra bullying ainda não existia. Lógico que as crianças pegavam no pé umas das outras, ao ponto de gerar muitos atritos e desafetos. Porém, raros eram os casos que vinham a público de crianças que entravam em depressão ou se matavam por conta do bullying. Isso não significa que o bullying não existia, apenas aponta que a situação não recebia tal importância.

Quando era criança, reclamei diversas vezes para minha mãe que estava com falta de ar. A sensação que tinha (e tenho) era como se meu pulmão fosse um balão com um pequeno furo e todo o ar que eu puxava escapava pelo furo. Minha mãe nunca deu importância… devia achar que era frescura, exagero ou mesmo que eu estava inventando. Essa sensação se repetiu em minha vida durante anos até que certo dia, quando trabalhava em Blumenau, voltei para casa tão estressada que ao relatar uma situação de trabalho ao meu companheiro comecei a sentir tanta falta de ar que meu batimento cardíaco ficou desritmado e acabei desmaiando. Ao fazer uma série de exames, fui diagnosticada com ansiedade e apresentei esse quadro desde criança. Minha mãe não foi omissa, ela apenas não tinha o conhecimento de que crianças também poderiam ser ansiosas. Ou seja, ansiedade, depressão, Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), Transtorno de estresse pós-traumático… nada disso é restrito a adultos – na verdade, na era moderna, ninguém está imune a essas patologias malucas.

A falta de protagonismo e atenção ou bullying e às patologias da psique, como as apontadas acima, não fez com que os problemas sumissem. Muito pelo contrário, gerou sim uma cadeia de problemas gigantescos que poderiam ter sido perfeitamente evitados com a atenção devida. Não é a toa que hoje temos pais superprotetores, afinal eles foram filhos de pais relapsos (que acham que os filhos estão “inventando doença”). Não é a toa que hoje temos casos triste de depressão e suicídio entre crianças, afinal, nossa geração aprendeu a devolver o xingamento, ao invés de instruir o colega ou mesmo aos pais e à escola, que estava ficando triste com as brincadeiras sem graça.

Um exemplo que parece besta, mas que hoje fico perplexa em perceber a raiz do problema: minha prima Bia, quando era criança, dizia que não gostava de pizza nem de refrigerante. Nós, enquanto crianças, sempre achamos a Bia fresca e chata. Poxa, pizza e refri eram as melhores coisas da vida. Depois de penar muito com problemas estomacais, a Bia foi diagnosticada com gastrite e intolerância à lactose. Olhe ao redor e veja quantos intolerantes à lactose você conhece…. Vários, não é mesmo? Novamente, esse problema existe há anos, apenas não havia sido diagnosticado.

Trago esse tema ao debate porque na semana passada, a cidade de BC foi palco de um crime bárbaro e de um teatro patético de um advogado covarde que assassinou a namorada a facadas e, cinco dias depois do crime, quando foi descoberto, o cidadão ameaçou se matar, mas acabou se entregando depois de 25 horas de showzinho babaca. A partir disso, os maiores jornais da região publicaram reportagens falando que a quantidade de feminicídios aumentou muito em SC nos últimos anos, o que foi um choque para zero pessoas.

Eu sei que os jornais apresentaram dados numéricos sobre essa triste realidade. Porém, torno a discordar. O feminicídio é comum e corriqueiro, porém nem sempre é registrado como assassinato. Até porque existem tantos casos de “desaparecimento” e “acidentes” que não são contabilizados como feminicídio. A própria palavra FEMINICÍDIO é nova, pois antes esse crime era caracterizado como “passional”.

Em suma, os casos de feminicídio não aumentaram, apenas estão ganhando a verdadeira repercussão que merecem. A prática de enxergar e tratar a mulher como posse é quase que ancestral da nossa sociedade e existem diversos meios de se livrar desse crime, alegando insanidade mental, por exemplo. Enfim….. Não vou me prolongar para não chover no molhado. Mas essa história de “nunca antes houve tal coisa” é conversa para boi dormir. O problema sempre esteve ali exposto, falta apenas os interessados darem a devida atenção.