Coluna Vanessa Brasiliense Barcelos 23/05/2019

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Ao mestre, com carinho

Sempre que sento para escrever a coluna, procuro buscar um tema que esteja em voga para debatê-lo. Atualmente, o governo federal tem sido o maior patrocinador dos escritores, jornalistas e comediantes do Brasil, pois a cada dia que passa, temos um novo debate a traçar.

A classe artística vem sendo muito atacada desde o período das eleições presidenciais. Quem ataca essa classe, são artistas ressentidos (como o caso de Lobão), artistas duvidosos (como Eduardo Araújo) ou cidadãos comuns, que nunca pisaram num museu ou num teatro, mas que agora se acham especialistas em cultura brasileira.

A Lei Rouanet é a testa de ferro dessas críticas. Eu trabalho com assessoria de comunicação para projetos culturais, majoritariamente financiados por Leis de Incentivo à Cultura em âmbito municipal, estadual e federal. Por isso digo, com propriedade de palavra, que essas leis são essenciais para o fomento da cultura brasileira.

Há pouco tempo, o ator Miguel Falabella esteve no programa Conversa com Bial e dissertou brevemente sobre a Rouanet. O ator que deu vida a Caco Antibes explica que, se o produtor quer fazer uma peça teatral pequena, não precisa da Lei. Mas se resolve fazer um musical de grandes proporções (como a remontagem da peça Annie, por exemplo) a Lei Rouanet é fundamental. A verba provinda para financiamento do espetáculo gera uma infinidade de empregos diretos e indiretos. Além disso, todos os projetos financiados pela Rouanet devem apresentar uma prestação de contas de todos os centavos investidos no projeto. Ou seja, ninguém enriquece com a Rouanet. Ela apenas dá a verba necessária para a realização do espetáculo, pois é mais acessível do que a busca por patrocínios.

Digo isso porque essa semana, o compositor, escritor, teatrólogo e músico Chico Buarque foi condecorado com o Prêmio Camões, a premiação literária mais importante da língua portuguesa. O júri foi unânime quanto à decisão, afinal de contas, com mais de 50 anos de carreira, milhares de músicas, peças e livros, o poeta, respeitado em todo o mundo, é muito merecedor da honra.

Quem é leitor da coluna sabe que sou profunda admiradora de sua obra, tanto que tenho a música “O que será, à flor da pele”, tatuada em meu braço. Muito de fala sobre Chico Buarque, mas pouco se sabe sobre ele. Pessoas que mal conhecem suas músicas, se acham aptas a julgar sua competência, baseados em fake news de whatsapp. Então, vou aproveitar esse espaço para explicar aos desavisados quem é o filho de Sérgio Buarque de Hollanda.

Situação número um: Chico nunca fez projetos pela Lei Rouanet. Antes de tudo é válido esclarecer que os artistas em questão somente se preocupam com a obra. A captação de recursos, produção e marketing ficam a cargo da equipe de produção de cada artista. Se bandas de pequeno porte, como o Dazaranha, já contam com uma equipe de cerca de 30 pessoas, pensem só como deve ser o tamanho da equipe de um artista conhecido no mundo todo!?

Mesmo com uma equipe por detrás, Chico é consciente e alertou seus produtores a jamais recorrer à Lei Rouanet para a captação de recursos para seus shows. Sei que muitas pessoas vão ler isso e duvidar dessa informação, afinal, o que corre na boca pequena é que Chico suga da Lei há anos. Assim sendo, convido vocês a lerem a reportagem “Três Polêmicas sobre a Lei Rouanet” do site da BBC. A reportagem é de 2016, antes da campanha presidencial, e ela explica que Chico nunca buscou financiamento via Rouanet. Pois é amigos, a notícia e velha e tem gente que continua insistindo nessa mentira.

Outro ponto muito importante sobre Chico é o boato de que ele não é o compositor de suas canções. Isso partiu de um vídeo no qual ele fala para um amigo que compra as músicas de um outro sujeito. Quando vi esse vídeo nem entendi a polêmica. Afinal, esse mesmo trecho consta em um dos DVDs de Chico que comprei ainda nos anos 90. O comentário é uma brincadeira que o compositor faz com um colega no estúdio e, quem viu o vídeo inteiro, sabe que é brincadeira.

Porém, na febre das eleições, começaram a espalhar esse vídeo e deturpar a competência de Chico. Se vocês acessarem a sessão de comentários de qualquer veículo que publicou o prêmio Camões, verão diversas pessoas compartilhando esse vídeo – que para eles foi algo vazado, um verdadeiro achado, um segredo guardado a sete chaves que de repente pairou na internet. Se continuam duvidando de mim, busquem no site boatos.org e vão encontrar toda a explicação desse caso patético, propagado por invejosos incompetentes.

Francamente pessoal. Ninguém é obrigado a gostar da obra de Chico, mas ele merece, no mínimo, respeito. Trabalho no ramo da música, convivo com artistas do sertanejo ao trash metal e todos os que realmente entendem de música, admiram a arte de Chico, independente do seu gosto, musical. O próprio Jô Soares, pouco antes de se aposentar, fez um discurso emocionado em seu programa, defendendo Chico de todas essas acusações chulas.

Mas o que mais admiro nesse grande artista é que ele é tão seguro de si, tão verdadeiramente talentoso, que nem se desgasta com esse tipo de picuinha infantil. Acho que eu, como fã incondicional, me incomodo mais que ele com esses boatos. E na sua grandeza de espírito, com a certeza de seu talento, Chico recebe a maior condecoração da língua portuguesa. Parabéns, mestre. Você merece todas as honrarias do mundo!