Coluna Vanessa Brasiliense Barcelos 28/02/2019

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Patriotismo

Estudei no Colégio Estadual Simão José Hess em Floripa da primeira à quarta série, ou seja, de 1991 a 1994. Sempre antes de entrar em sala de aula, os alunos de todas as turmas formavam filas indianas, perfilados por altura, em um espaço dedicado só para isso no pátio da escola. Quando a professora chegava, os alunos esticavam o braço no ombro do colega da frente, enquanto a professora entoava “Cobrir! Firmes!”.

Na primeira série, tive aula com a professora Sandra, uma baixinha com sotaque bem manezinho e uma didática impressionante. Ela tinha um domínio tão grande dos alunos que ela estipulava a “hora do silêncio”, no qual o aluno que abrisse a boca naquele período perderia um ponto na média. Até as crianças mais arteiras tremiam na base quando ouviam os passinhos leves da professora Sandra nos corredores.

Na segunda série, tive aula com a professora Paulina, uma senhora ranzinza, mal encarada e muito, super, ultra, absurdamente religiosa. Sempre tive aula de religião (católica) no Simão, mas a professora Paulina queria nos repassar um fanatismo absurdo. As provas de religião eram mais difíceis que as de matemática. Ela só nos ensinava cantigas religiosas, nos obrigava a rezar o Pai Nosso em voz alta e nos cobrava os 10 mandamentos com a mesma importância da tabuada.

Na terceira série, tive aula com a professora Arveli, uma loira de olhos azuis que dava cascudo nas crianças que não faziam a tarefa. Ela fazia provas orais e intimidava os alunos de uma forma tão grosseira que alguns chegavam a fazer xixi na calça de nervoso. E daí que a Arveli batia mesmo; tapas na bunda, beliscões e os seus tão famosos cascudos.

Hoje lembro do Simão com dor no coração. A escola era enorme – no meu olhar de criança – mas era totalmente precária. Os professores eram frustrados e cansados. O professor de educação física complementava sua renda vendendo churros na saída da escola. Quando a quadra precisou ser reformada, os pais, os alunos e professores fizeram um mutirão de reforma, pois o Estado não dava a mínima importância.

Passamos por uma série de greves de professores. Ficamos muitas semanas sem aula e no final do ano, não tivemos nenhuma reposição. Em 1992, quando deu uma temporada de chuva muito forte, a nossa sala de aula foi interditada, pois o vento destelhou o prédio, o que gerou uma verdadeira cachoeira em cima dos nossos cadernos e apostilas. Os bebedouros e banheiros estavam sempre estragados. Tinha uma lanchonete dentro do colégio, mas também tinha merenda. “Nunca coma a merenda da escola, leve seu lanche de casa”, dizia minha mãe. “Mas tem cremogema de chocolate, mãe”, eu reclamava. “Você pode comer cremogema em casa, as outras crianças não”, dizia minha mãe, sempre tão preocupada.

Na quarta série, já éramos considerados pré-adolescentes e o nosso horário do recreio já era diferente das séries iniciais. Na aula de estudos sociais, aprendemos tudo sobre o estado de Santa Catarina e sobre o Brasil. Conhecemos os símbolos, as nomenclaturas, as regras e aprendemos o que era a tal da Constituição. Nas quartas-feiras, uma das turmas (acho que da oitava série, não lembro ao certo), era responsável por hastear as bandeiras do Brasil e do Estado, enquanto os demais alunos permaneciam eretos em filas cantando o hino nacional. E ai de que não soubesse cantar!!! Levava uma forte represália da professora.

Estou comentando tudo isso porque essa semana, o MEC resolveu criar o mínimo de bom senso e fazer parte da turma do “foi mal ae” do governo Bolsonaro, retirando a obrigatoriedade das escolas em cantar o hino nacional, filmar os alunos e repetir o slogan da campanha do presidente. Pois bem, eu fui uma das crianças que viveu toda essa baboseira de hastear a bandeira e cantar o hino. Tive aulas de religião, moral, cívica e estudos sociais. Tive que fazer filas, usar uniformes alinhados, andar só de cabelos presos e tênis preto. Tive prova sobre os 10 Mandamentos (oi?), tive professoras extremamente rígidas, fiz silêncio na sala, fiz xixi na calça de medo. Nada disse me fez mais patriota. Isso tudo apenas resultou na consciência do quão precária é a educação no Brasil. desenvolvimento consciente do quão precária é a educação brasileira.

Essa medida paliativa, frustrada e medíocre do governo federal é uma tentativa desesperada em agregar mais aliados para o seu lado. Tanto falavam de doutrinação comunista nas escolas… mas quem está obrigando criança a ler slogan de campanha é esse cidadão desprovido de bom senso que senta na cadeira mais importante da nossa nação. Antes de falar em patriotismo, o ideal é fechar as pernas para o EUA e investir em educação de qualidade, não em DOUTRINAÇÃO – porque, caso ainda não esteja óbvio, isso sim é doutrinação!