Com Lama nos Olhos

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A sirene não tocou….

A barragem rompeu….


Dor e mais dor.  Angústia na espera de encontrar o filho, a namorada, o amigo, a esposa, o pai…. Sensação de ambivalência: Quero que os bombeiros encontrem para dar um sepultamento digno. Não quero que os bombeiros encontrem, porque tenho esperança de que ele/ela vai aparecer aqui a qualquer momento. Deve estar perdido(a) na mata…” Dor que não se explica…

Caminhar pelos bairros de Brumadinho oferecendo um ombro, um abraço através de uma escuta amorosa e compreensiva foi a experiência mais impactante de nossas vidas. Como caminhar entre enlutados, sofridos e de corações partidos sem se envolver, sem se comover, sem chorar junto? Como ir a um velório, mais um e mais um e não fazer empatia com a mãe desesperada, com o marido com semblante de: E agora? Ao olhar para seus filhos sem mãe ou com o choro dos amigos que tantos amigos enterraram? Impossível não sentir a dor com eles.

No silêncio da igreja, sentadas ou de pé, ouvindo as histórias de tantos Geraldos e Marias que – após lágrimas e preces – nos apontavam as fotos dos que a lama arrastou, (sim, as fotos ali, coladas nos degraus do altar) e relatavam comportamentos e falas deles dias antes da tragédia. Chamamos de “Experiência na Igreja”, porque foi além do apoio emocional, foi misturar as almas ao acolher uma dor imensurável e em alguns momentos misturar as lágrimas. Quantas pessoas de uma mesma família é possível suportar a perda? Uma, quatro… nove? Ser forte o suficiente e vir rezar para os seus e os outros que também se foram… foram tantos! Tantos tão jovens, com tantos planos… E quando oferecíamos nosso abraço recebíamos um mais forte, mais caloroso que nos primeiros dias nos desconcertava.

O projeto Ação Malas Prontas do Centro de Valorização da Vida (CVV) se fez presente em Brumadinho desde a segunda semana após o rompimento da barragem. Deve se estender até maio. Cada grupo fica disponível por oito dias. Quem está finalizando o trabalho repassa as ações ao grupo que chega, temos uma mediadora que faz a ponte, acima dela uma coordenação nacional. Os grupos se formam com voluntários do CVV que seguem a mesma filosofia, é o que nos une. Nosso grupo era grande, dez voluntários, poucos se conheciam. Tínhamos um trabalho a fazer a começar por nós, convivermos mais de dez horas por dia juntos, lidarmos com intensas emoções, planejarmos, executarmos e perceber as individualidades. O nosso voluntariado foca a atenção ‘no outro’ e ‘o outro’sou eu para o colega. Foi incrível a experiência vivida nesse sentido, exercitarmos tudo,lidarmos com tudo, colocarmos em prática o CVV intensamente, full time. Gratidão colegas!

Nossa alimentação era preparada por outras pessoas incríveis que também se voluntariaram, que saíram de suas cidades, que tiraram férias, que largaram suas famílias por poucos ou muitos dias para estar lá, voluntariamente, sem vínculo com entidade alguma, chegaram e colocaram-se disponíveis… Preparar a comida, carregar e descarregar caminhão de água, roupas, mantimentos, sem horário, sem contrato, sem se importar com o calor… com sorriso nos lábios e lama nos olhos. Gratidão a todos!

Quando foi necessário sair a campo, saber onde estavam as pessoas que mais foram atingidas, desbravar bairros, lá estava Zezé! Com seu uniforme de bombeiro, nos seus dias de folga (estivemos lá na semana do carnaval), prestativo, disponível, de pouca fala, vivenciou cada instante desde que a barragem rompeu, não se lamentou, disponibilizou-se. Saiamos no carro dele… Evitou falar das perdas, quase nada nos contou das pessoas e dos corpos que ajudou a resgatar. Um mineiro de coração grande! Gratidão Zezé!

Fomos para Brumadinho prestar apoio emocional e trouxemos lições:

Com a humildade deles aprendemos que o orgulho nos faz perder tempo, aprendizado e pessoas;

Com suas vozes calmas e suaves aprendemos que o amor está nos detalhes;

Com sua generosidade aprendemos que sempre temos algo à oferecer ao próximo;

Com a fé e a religiosidade deles fortalecemos nossa esperança;

Com as dezenas de crianças e adolescentes órfãs sentimos o amor incondicional dos avós;

Com a morte ao lado aprendemos que a vida é AGORA. Falar sobre a morte é falar da VIDA!

Saímos de Brumadinho mais fortes e mais humildes, com lama nos olhos e nos questionando: Quando minha barragem vai romper? Quando sua barragem vai romper? O que importará nessa hora?

Para finalizar, um trecho da música que Dom Vicente Ferreira – Bispo auxiliar de Belo Horizonte – escreveu:

Lamento

“Bruma de Brumadinho se foi embora

Seu povo chora, dor que dói demais

Cada olhar é lágrima, nuvem que pesa

Mas a gente reza implorando paz

[…] se o vale da morte insiste, vale não vale nada”

Fatima e Marilê