Debate na Alesc destaca prevenção ao câncer de cabeça e pescoço

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Um debate sobre a Campanha Nacional de Prevenção do Câncer de Cabeça e Pescoço foi o destaque da reunião da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa na quarta-feira (14). Parlamentares, especialistas e portadores de câncer discutiram a situação do estado e ações necessárias para melhorar as condições de tratamento e a qualidade de vida dos pacientes que convivem com o problema. A criação de um fundo estadual de combate ao câncer foi apontada como uma relevante solução.

Presidente da Associação de Câncer de Boca e Garganta (ACBG Brasil), Melissa do Amaral Ribeiro de Medeiros citou que o debate virtual organizado pela Alesc tem grande importância por tratar “de um assunto de tamanha utilidade pública”. Segundo ela, é preciso discutir questões importantes para que “se possa melhorar consideravelmente a qualidade de vida” dos catarinenses que sofrem com os vários tipos de neoplasia maligna.
Na visão de Melissa, a criação de um fundo financeiro “vai ajudar a diminuir os problemas”. A presidente da entidade destacou que só com câncer de face há 1100 pessoas no estado que precisam de atendimento.

Ana Paula Guedes Werlang, que cuida do departamento jurídico da ACBG Brasil, destacou que estados como Alagoas e Maranhão já têm, desde 2014, um fundo específico para o combate à  doença. “É um projeto que exige muita sensibilidade. A gente entende que gera uma questão orçamentária para a Secretaria de Estado da Fazenda. Mas a verba do fundo viria do ICMS gerado por produtos tabagistas, agrotóxicos e bebidas alcoólicas. Não impede o comércio desses setores”, comentou.

Autor do Projeto de Lei 11/2021, que cria o Fundo Estadual de Combate ao Câncer, o deputado Neodi Saretta (PT), afirmou que aguarda a designação de um relator para a matéria na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). “Vamos fornecer todas as informações nessa e nas demais comissões. Espero que possamos chegar ao objetivo. O câncer é a segunda causa de morte no mundo”, explicou. O texto prevê que 5% da receita do ICMS sobre produtos tabagistas e bebidas alcoólicas, e 3% do que for arrecadado pelo governo sobre agrotóxicos e derivados agrícolas, formem o fundo.

 

Conscientização
Rafael Goulart Nunes, Médico cirurgião do Núcleo integrado de cirurgia de cabeça e pescoço do Núcleo Integrado  de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (NICAP), citou que debates como o realizado na Comissão de Saúde são fundamentais. “Os casos de câncer na cabeça e pescoço são muitos. Podem ser de pele, na cavidade oral, na língua, na tireoide”, afirmou, ressaltando que ainda há falta de informações para a população.

Por isso, na opinião dele, é essencial conscientizar a sociedade, mostrar que existem doenças e estimular o tratamento. “A gente sabe que, quanto mais cedo o diagnostico, melhor será o tratamento em com maior chance de cura e menos sequelas”, argumentou. Ao citar os casos de câncer de face, Nunes comentou que o tratamento pode trazer mutilações permanentes. “Quanto mais tarde [iniciar o tramento], pior serão as sequelas funcionais e estéticas”, lembrou.

Escassez de profissionais
Cirurgiã-dentista especialista em reabilitação bucomaxilofacial, Cleumara Kosmann revelou que uma dificuldade nacional é a baixa quantidade de profissionais especializados. Ela produz próteses graças a um trabalho com o SUS em um contrato com a Secretaria de Estado da Saúde. A doença provoca situações como a perda da língua e da fala, além de dificuldades para deglutição dos alimentos e perda do palato, deixando a qualidade de vida debilitada.

A presidente da ACBG Brasil concordou e informou que o Centro de Pesquisas Oncológicas (CEPON) “desmantelou” a equipe voltada à reabilitação dos pacientes. “Não é qualquer fonoaudiólogo [que pode atuar na área]. Precisa ter especialização na Oncologia, tínhamos três em Florianópolis, uma foi aposentada, outra demitida”, lamentou. Sobre isso, Nunes avaliou que se “existisse um acesso mais rápido” a profissionais especializados, “o tratamento seria muito mais eficiente”. De acordo com ele, hoje o CEPON só aceita pacientes que já tenham diagnóstico de câncer. O ideal, comentou, é que as pessoas com suspeita de câncer já fossem encaminhadas para os hospitais de referência.

Paciente do Serviço de Fonoaudiologia no Cepon, Ema Veronica Gal revelou que só fala por causa da prótese oncológica que usa. “Tenho 10 anos de câncer [de boca], já passei por muitos momentos difíceis. A qualidade de vida é muito diferente antes e depois. A radioterapia fez com que minha boca fechasse, passei por tratamento com fisioterapeuta e fonoaudióloga e voltei a falar, mas sinto problemas na deglutição. E isso é um problema com falta de profissionais”, contou.