Do direito para a literatura: a história de Felipe Schultze

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Entrevistão

Aos 24 anos, o blumenauense Felipe Gabriel Schultze trilha uma carreira de sucesso – dividida entre o Direito e muitos versos literários. Graduado pela FURB, Felipe busca no escritor Gabriel Garcia Marquez e na história dos movimentos sociais a base para sua verdadeira paixão: articular textos sobre cultura e democracia. “No livro dele, senti o cheiro e o sabor das coisas que o autor propõe a escrever”, revela o jovem, que roda nosso Estado para divulgar seu mais recente livro, “Coragem e Resistência”, lançado para dialogar com o atual momento brasileiro: uma batalha entre extremos. Na entrevista a seguir, o autor sugere a história como o ponto principal, onde teremos uma ponte para o conhecimento, necessária para refletirmos sobre temas atuais.

PERGUNTAS:

1 – Como é o desafio de se tornar um escritor, com livros publicados, no auge da era digital?

Acredito que ainda não há enormes desafios.  Há espaço para os livros digitais e os livros tradicionais. Sem muito cuidado e com um pouco de audácia, afirmo que os livros tradicionais são insubstituíveis, há uma questão de adaptação do mercado literário, como há uma adaptação das artes de modo geral. Os teatros sobreviveram as plataformas de streaming e os livros tradicionais sobreviverão ao mercado digital. O que acontece é que a cultura no Brasil está em calabouços vivendo quase marginalizada, e consequentemente, é lógico que o mercado literário sofre muito.

2- Por que falar sobre política é algo tão delicado?

Não deveria ser. O que acontece é que o nosso país está doente. Machucado com a corrupção de Brasília e pobre com a crise econômica, a política não é vista como um serviço público prestado; hoje ela é vista como um mitológico campo de batalha onde as soluções são realizadas a toque de caixa. Ocorre que, como todo campo de batalha, quem não está do meu lado é considerado meu inimigo. Acredito ser uma afirmação imprudente, mas a política é vista assim nos dias de hoje. O interessante, é que a política é feita para justamente evitar guerras.

3 – Em quais momentos da história mundial e/nacional, em sua opinião, passamos por algo parecido: em que extremos duelam por espaços em todos os campos?

A história não se repete, mas é interessante conhece-la para evitar erros parecidos. O Brasil sempre foi muito polarizado, desde a política café -com -leite realizada pelas oligarquias até a disputa política recente. Li alguns artigos escrito por churchill e percebi que, nos jogos de xadrez da política externa, o nacionalismo e o populismo de forma mundial remontam aqueles que deram início a segunda guerra mundial, cada qual em seu contexto.

4 – Na sua análise, quais os desafios e as conquistas que temos neste início do ano, para os movimentos sociais?

Conquista nenhuma. Os desafios são manter os direitos adquiridos e lutar por mais direito. Estou com uma teoria, ela pode ser contestada, que os movimentos sociais poder correr o risco de retrocederem em muitos aspectos, mas não ao ponto de se extinguirem. Os direitos já adquiridos, ao custo de muita coragem e resistência, são faíscas de esperanças inapagáveis.

5 – Existe uma ameaça real contra os direitos humanos no Brasil? Por que muitos analistas dizem que este fenômeno é mundial?

Tenho a impressão que culpam os direitos humanos pelo atual cenário do Brasil e do mundo.  É necessário compreender que os direitos humanos não são os culpados do mal da sociedade, são as soluções. É necessário combater os verdadeiros transgressores que causaram a crise em que vivemos. Essa marginalização é um fenômeno mundial, cada país com sua peculiaridade, mas é um fenômeno que põe a culpa da crise em indivíduos que já são marginalizados. Os direitos humanos são a solução que defende toda a sociedade, inclusive a liberdade de expressão daquele que se opõe aos direitos adquiridos. Norberto Bobbio afirma que não há democracia sem direitos humanos. É necessário que todos se vejam protegidos pelos direitos humanos.

6 – Por que intelectuais, artistas e professores em geral foram transformados em vilões por alguns setores?

Como já falei, hoje, em um país doente e sem alegria, propício a guerrear entre si, quem discorda minimamente é visto como um grande inimigo da pátria. Mario Sérgio Cortella afirma que no Brasil existe a informação, mas não se sabe o que se faz com ela. Acredito assim, que há um grande desafio de artistas e intelectuais saírem do meio universitário e, como agentes, levarem a informação de qualidade para a sociedade, para se criarem pontes e diálogos.