Dona Dina e os desamores do mar

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Nossa gente. Nossa história!

Uma cidade se faz muito além de suas construções, ela deve ter, embora não mais conservando suas casas antigas, um acervo de memórias dos que um dia aqui viveram e fizeram parte da vida e da história.

Por meio de uma reportagem especial, iremos retratar uma das senhoras mais querida de Itapema, Dona Dina. Vamos conhecer um pouquinho da mãe e esposa que perdeu, em uma das histórias mais triste e marcantes de nossa cidade, o marido e o filho no mar juntos.

Cleyton Amaral

Do alto dos seus 74 anos, Ondina Crispim conta sua história de vida, marcada por alegrias e também grandes tragédias. Itapemense, negra, guerreira, mulher de coragem e muita fibra. Com o mar dividiu amores e também perdas. Por meio desta reportagem especial, você irá conhecer uma das senhoras mais querida de Itapema, carinhosamente chamada de Dona Dina. Vamos desvendar um pouquinho da mãe e esposa que perdeu, em uma das histórias mais triste e marcantes de nossa cidade, o marido e o filho no mar juntos. Colaborando com o professor e Paulo Nascimento, o jornal A Hora de Itapema registra há algum tempo a pedido dos mesmos, imagem e os depoimentos de pessoas históricas e maravilhosas de nossa cidade, para que suas imagens nunca se percam.

Dona Dina…

Nascida durante a Segunda Guerra Mundial, Dona Dina veio ao mundo e logo já pode sentir as dores do abandono. Foi criada por uma tia, quando a mãe, Maria Tomazia de Jesus, lhe entregou para que tivesse um futuro melhor.O pai, esse, infelizmente, não consta na carteira de identidade e nem nas lembranças desta itapemense. “É triste crescer sem pai”, lamenta até hoje. Pode-se dizer que a vida de Ondina Crispim foi uma vida de provação. Apesar de nascida aqui, próximo a um engenho de farinha, cresceu com uma tia em Navegantes, onde só retornou a Itapema, depois de casada. Na infância, trabalhou desde cedo em casas de famílias. Foi casada com Bernardo Manoel Crispim. “Não era para ser ele, mas foi ele foi rápido, passou na frente do outro pretendente”, conta sorrindo, lembrando do amado. O casal teve 9 filhos. Viviam uma vida simples, pacata, mas com muito amor. O marido era pescador, oficio que aos poucos pretendia passar para os filhos.

É doce morrer no mar…

Parafraseando Caymmi para relatar um episódio que marcou a vida e foi um divisor de águas, literalmente na vida de Dona Dina e dos filhos. Era inverno na antiga Tapera, o mar estava agitado fazia dias. No Canto da Praia, refúgio dos pescadores, já haviam notícias que barcos tinha ido para o mar e não haviam retornado. Seu Bernardo resolveu ir para o mar, apesar das negativas da esposa. “Foi um dia mais frio na cidade, nunca fez tanto frio como aquele dia. Meu marido convocou os companheiros de pesca, porém um tripulante se recusou a ir por conta do mal tempo. Ele era muito teimoso, acabou levando o nosso filho mais velho, na época, com 10 anos. Antes de irem, o nosso filho chorava, não queria ir, mas o pai não mudara de opinião. Com os ventos fortes, houve um apagão. Quando voltou ao normal, o menino falou que só iria naquele dia.… e foram para o mar, meu esposo, meu filho, um genro e um conhecido. Estava cozinhando Taiá (uma espécie de batata) e hora passando, meu coração já sentia que algo estava errado… de tanto nervoso, cozinhei aquele Taiá por horas e horas até chegar a notícia de que eles não iriam mais voltar… fiquei abobada por muito tempo, perder o marido, filho e ao demais para o mar foi muito cruel”…

Viúva e com oito filhos para criar, Dona Dina foi trabalhar para fora. Foi uma das primeiras funcionárias do antigo Hotel Plaza, chegando, inclusive, a trabalhar na inauguração. “Eram tempos bons, muitas festas naquele local mágico… Era moça, apesar de viúva, muitos homens gostavam dessa morena… Os argentinos, esses mesmos ficavam encantados comigo, recebi muitos convites até para morar na Argentina, mas minha vida sempre foi voltada para meus filhos… e assim, com dificuldades fui criando todos com muito amor e carinho”, conta.

Hoje, Dona Dina vive no bairro Várzea, devido à idade, passa um tempo na casa de uma filha, outro tempo na outra. Não reclama da vida que levou, apesar das dores que carregou. Com 14 netos e 10 bisnetos e sente saudades de uma Itapema que hoje só existe na lembrança.