Editorial Cleyton Amaral 20/03/2019

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Da série: não sou racista porque tenho “amigo de cor”

“Um dia desses, voltando para casa, passei por um senhorzinho negro, desses franzinos, caminhando pela rua com uma certa dificuldade que, em pleno Carnaval, podia ser alcoólica ou simplesmente causada pelas malvadezas da idade.

 Alguns passos adiante me deparei com uma senhorinha branca e uma menininha, que me pareceu ser sua neta. A menina se esgueirava de volta para perto da, digamos, avó e perguntou a ela, enquanto me olhava passar, de soslaio: “Ele já foi?”

Ela se referia ao senhorzinho. Seu rostinho indicava o tamanho do medo que tinha experimentado. E a avó baixou a voz para responder um tradicional: “Viu, se você (qualquer coisa que não escutei), ele pode te pegar.” Eu nem precisava ouvir toda a frase para saber o que acontecia ali.

 

O senhorzinho negro era o perigo, o homem malvado, aquele que iria pegar a menininha se ela fizesse algo que a avó não aprovava. Uma frase, uma coisa à toa, sem intenção, ela diria. Um jeito de manter a netinha na linha.

 

Um dia, porém, a menininha vai crescer e dentro dela, provavelmente, vai se manter um certo medo (ou, no mínimo, uma desconfiança) de pessoas negras.

 

A avó, provavelmente, não se acha racista. Talvez ela até tenha uma vizinha negra que faz bolos maravilhosos e que ela “sempre trata como se fosse da família”. Ontem, no entanto, ela disse para a sua neta que velhos negros andando de forma capenga, talvez pelas dores da idade, são perigosos e podem pegar. Ela talvez não saiba como se constroem as imagens mentais. Ela talvez não saiba o poder da sua simples frase.

 

A gente torce que essa menininha não deixe crescer demais esse medo e não passe a pensar que pessoas perigosas, como esse velhinho negro capenga, devem ser banidas da face da Terra.

 

Onde você vê “uma brincadeira”, eu vejo racismo. Onde você vê “um jeito de falar”, eu vejo desconstrução de autoestima. Onde você não vê negros, eu vejo invisibilidade. Onde você vê perigo, eu vejo um Preto Velho”.

Reflexão da amiga jornalista Márcia Feijó! Parabéns!