Grafite ganha status de expressão artística em Porto Belo

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Projeto aprovado pela Câmara autoriza Executivo a promover intervenções com a técnica em espaços públicos

– Forma de intervenção urbana que usa muros e paredes como telas para elaborados desenhos, o grafite é uma manifestação artística nem sempre compreendida (muitos a confundem com a pichação), mas que ganhou relevância nos últimos anos graças ao traço de nomes como Eduardo Kobra, Fábio Cranio e Os Gêmeos (Gustavo e Otávio Pandolfo), cujos trabalhos fazem estrondoso sucesso longe das fronteiras nacionais. Não se trata de algo familiar às ruas de Porto Belo (salvo por uma ou outra aparição), mas que recebeu da Câmara de Vereadores o status de “forma de expressão e de arte” do município.

A proposta foi formulada pelo presidente da mesa diretora, vereador Diogo Santos (MDB), que viu seu projeto de lei 12/20 ser aprovado pelos demais colegas de plenário na sessão ordinária do dia 16 de março – quando os desdobramentos da crise provocada pelo novo coronavírus ainda não haviam reivindicado toda a atenção do setor público. Porém, nesta semana, a matéria ganhou o aval do Executivo, que a sancionou sob a forma da Lei 2879, de 4 de maio. É certo que, no atual contexto de pandemia, não será uma legislação de imediata aplicação. Ainda assim, Diogo já projeta uma cidade com menos paredes cinza depois que tudo voltar ao normal.

Na prática, a lei autoriza o poder público a utilizar o grafite para decorar áreas de sua jurisdição, como rampas de skate, vãos de pontes, muros e fachadas de prédios. Também assegura a proprietários de imóveis privados o direito de dispor de suas paredes como suporte para esse tipo de arte, se assim o desejarem.

A proposta vai ao encontro de algumas ações da gestão municipal, como o projeto Colorir, realizado em 2019, e que promoveu algumas intervenções no entorno da Praça da Bandeira, mas é inspirada em iniciativas da prefeitura de Florianópolis, que formalizou parcerias com artistas locais para a realização de grandes murais com retratos de personalidades catarinenses, como o poeta Cruz e Sousa, o pesquisador Franklin Cascaes e a jornalista e política Antonieta de Barros.

Esse tipo de associação entre grafiteiros e poder público é o que Diogo almeja. Inclusive, já tem artista local esfregando as mãos. É o caso de Geverson Azevedo, 51 anos de idade. Nascido em Xanxerê, há treze anos em Porto Belo, Zico, como é mais conhecido, se tornou uma referência do grafite na cidade ao realizar, ano passado, a pintura de alguns postes de iluminação. Na sequência, ele protagonizou o projeto Colorir e pintou um mural no início da passarela construída próximo à praia das Vieiras. Com a lei em vigor, já imagina desengavetar velhas ideias. E espera não ser o único beneficiado: “Fiquei muito feliz com o interesse do poder público nessa arte. Tenho certeza que a gente vai resgatar muito artista que está escondido por aí, além de embelezar a cidade”, afirma.

Do tempo das cavernas

O grafite, enquanto movimento artístico, surgiu entre o final da década de 1960 e início dos anos 1970 nas ruas de Paris e Nova York. No entanto, Zico Azevedo faz questão de recuar a sua origem lá para a aurora dos tempos. “O homem das cavernas desenhava nas paredes. Então, o grafite nasceu ali, na Pré-História. As artes rupestres são pais do grafite”, situa.

De qualquer forma, em seu formato contemporâneo, o grafite está associado à contracultura e a movimentos como o hip-hop, além de possuir certo parentesco com a pichação, com a qual divide semelhanças no material utilizado (tinta spray) e no suporte (muros e paredes). A esta última, porém, falta o apelo estético e a simpatia institucional. Inclusive, um dos objetivos do projeto de Diogo Santos é separar uma coisa da outra. Segundo ele, reconhecer o grafite é uma forma de “a gente dizer que a pichação é crime”.