Nossa Gente, Nossa História: Higino Oltramari

567
Compartilhar

Série especial

O tabelião mais antigo da cidade é o terceiro homenageado da série especial “Nossa Gente, Nossa História”, do jornal A Hora. Pelos registros do cartório passaram e ainda passam boa parte da história da nossa querida Itapema.

“Oh! Oh! Seu moço! Do Disco Voador, me leve com você para onde você for… Oh! Oh! Seu moço! Mas não me deixe aqui, enquanto eu sei que tem tanta estrela por aí…”. Para falar um pouco do nosso terceiro homenageado da série especial do jornal A Hora, recorremos uma letra do saudoso Raul Seixas. Higino Oltramari é intelectual, sensível, irreverente, simples, aventureiro, bem-humorado e de bem com a vida. Higino Antônio Oltramari, o tabelião de Itapema. Nascido em Caçador, no Centro do Estado, foi mandado para um internato de padre ainda quando garoto. Mudou-se com a família para Lages, os pais – um casal de descendentes imigrantes do Norte da Itália – e quatro filhos, sendo três homens e uma mulher. Higino era o filho mais velho da família Oltramari.

O pai, esposo de Excélia Irís, inteligentemente o levou para Curitiba, instalando-o na casa do tio. “Lembro-me das palavras do meu pai na altura. Nessa época ele tinha 18 anos e foi para a capital paranaense após passar um ano inteiro em Caçador com os maristas. O então jovem pediu uma ajuda para o tio e foi trabalhar em uma distribuidora de livros da cidade. Logo em seguida, por sua conta, fez a matrícula na segunda série ginasial no colégio “PP” Iguaçú. Após passar de ano, ele resolveu ir para São Paulo, a convite de um industrial que conheceu dentro de um bordel em Curitiba. Após um ano na selva de pedra, o industrial que havia levado Higino para São Paulo faliu e o jovem teve que retornar à Curitiba.

O cartório iria mudar a vida de jovem

 “Quando eu assumi o cartório, meu sogro me disse: “Vou te dar um conselho que vai te servir para o resto da vida: os primeiros cinco anos que você estiver no cartório, você corta esse cabelo, essa barba, esquece de tudo e se dedica de corpo e alma ao cartório. Quando nascer uma criança você fique feliz. Quando morrer você fica triste. Você deve viver a cidade. Depois você faz o que quiser””. Higino assumiu o cartório em janeiro de 1969 e em 30 de outubro do mesmo ano, nascia sua segunda filha, Gabriela. Mas não foram apenas cinco anos. Foram quase oito anos que Higino se dedicou integralmente ao cartório e não viu o tempo passar e nem fez outra coisa nesse período. Depois, aí sim, ele comprou uma motocicleta e o cabelo e a barba cresceram e se aventurou mundo afora. “Mas continuo a mesma pessoa que eu sempre fui, me dou bem com todo mundo e fiz a minha vida toda aqui dentro desse cartório”. Em janeiro de 2019, ele completou 50 anos como tabelião de Itapema. “Quando eu cheguei em Itapema tinha menos de mil eleitores e quase 3 mil habitantes. Eu estava aqui antes do Hotel Plaza Itapema e quando o Adolf Ern se suicidou. Eu fiz a primeira piscina da cidade, que foi para minha filha, a Gianna. Quando encontraram as vértebras de uma baleia nas escavações do edifício Chapecó – o primeiro edifício de Itapema – eu já estava aqui. Quando o Olegário Bernardes passou o mandato para o Nelson Santos eu também estava aqui. Quando foi instalada a primeira linha telefônica eu estava aqui. Quando foi feito o calçamento da Nereu Ramos, quando o Dr. Stalin Passos criou os bairros de Itapema eu já estava aqui. Quando Sebastião Conick fez a primeira imobiliária Andorinha, quando o Leopoldo Zarling fez o primeiro loteamento de Itapema, que foi o Jardim América eu já estava aqui. Quando Itapema não tinha médico, dentista e nem farmácia eu já estava aqui. Quando os bairros Morretes e Meia Praia não tinham loteamento e nenhuma casa eu já estava aqui. Quando o posto Flamingo foi feito, quando a BR-101 não tinha sido inaugurada, quando não existiam lanchonetes eu estava aqui e eu estava aqui antes do Beto Cadori, do Beto Savoia e do Dedeca, que são pioneiros. O primeiro táxi de Itapema foi uma Simca Chambord que eu comprei e vendi para o Arilton, filho do pescador seu Bento. Então tudo passou pela minha mão. Eu vi todos os edifícios crescerem e todas as construtoras se instalarem na cidade. Eu vi a cidade crescer”. Por tudo isso, Itapema é o seu chão, onde Higino fez a sua vida e onde só pretende dizer adeus com a morte.

Homem de muitas paixões

Outra paixão do tabelião são as viagens que ele realiza uma vez por ano. “Tudo o que eu queria eu fiz. De motocicleta eu percorri nove vezes o Brasil e três vezes a América do Sul. Tive o prazer de conhecer todos os países da América Latina, não só as capitais como as cidades do interior, com exceção da Venezuela que eu só fui para a capital e fui desestimulado pelo povo de lá a conhecer o interior porque é muito perigoso”. As viagens de motocicleta pararam em 1996 após sofrer três acidentes e ter quebrado por três vezes a perna esquerda. Por recomendação médica, decidiu abandonar a motocicleta e hoje curte suas viagens de carro na companhia dos amigos.

A família

Higino se diz um homem realizado e tem muito orgulho da família que constituiu. “Tenho duas filhas de sangue, a Gianna e a Gabriela que são maravilhosas e criei quatro homens: um sobrinho, filho do meu irmão, que me dá muito orgulho, o Gabriel Oltramari Neto, engenheiro civil. E criei os outros três da minha segunda mulher, o Cristiano, o Rodrigo e o Felipe, que juntos formam a inicial do meu time do coração, o Clube de Regatas do Flamengo, filhos da N. Dina, da qual estou separado, mas continuamos juntos, muito mais do que antes, só que ela na Bahia e eu aqui. Vemo-nos uma vez por ano, mas estamos completamente ligados”. Higino se casou por duas vezes. A primeira esposa foi a mãe das suas filhas, Gianna e Gabriela. “Ela me deu esse presente maravilhoso que são as meninas. Tenho muita alegria de trabalhar com Gianna e tenho muita alegria da Gabriela que não quis nada com o cartório, mas foi para a área da psicologia e está realizada profissionalmente. Os meninos também me enchem de orgulho. O Cristiano é jornalista, o Felipe é médico veterinário e o mais novo, o Rodrigo, se formou em Direito, trabalhou aqui comigo por sete ou oito anos e depois partiu para a área de Educação Física e hoje só me dá alegria. Sou muito realizado com os filhos que tenho”, finaliza.