O rancho dos avós Maneca e Kinha

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Nossa Gente, Nossa História


A nossa série de reportagem especial volta ao bairro Ilhota, em Itapema. Fomos conhecer um pouco da história de Manoel Amândio da Silva, 78 anos, e de Maria Noemia da Silva, de 82, que são do tempo em que o cotidiano da Lavoura eram atrelados às tradições da igreja.

Cleyton Amaral

O casal, que neste ano completa seis décadas de união, são o protagonista desta semana. Donos de um dos primeiros engenhos de farinha do bairro Ilhota, Seu Maneca e Dona Kinha, como são mais conhecidos, criaram os oitos filhos com muito trabalho e amor… e eles tem muita história para contar.

Dona Kinha, nascida no Estaleirinho, filha do saudoso “Zé do Leite”, sanfoneiro e verseiro de improviso no antigo povoado. Desde os 15 anos, tornou-se paroquiana ativas nas novenas e na catequese na histórica capela de São Miguel, no Estaleirinho. A nossa personagem foi aluna de Dona Lica e Dona Maria Linhares, primeiras professoras de Itapema.

Seu Maneca é manezinho de Bombas. Segundo o nosso personagem, sua mãe viuvou cedo. Algum tempo depois, a mãe de Seu Maneca começou a gostar de um primo de dona Kinha. Naquela época, eles iam e voltavam a pé até Zimbros. A história de amor desde dois já estava escrita no destino. Ele, cinco anos mais novo, aos 12, pediu a mão da bela jovem.

No fundo, dona Kinha sabia que em seu caminho estava um homem mais moço. Quando jovem, era tradição por aqui, entre as donzelas solteiras, na época de São João, as moças iam até a plantação de café para colher um grão. Geralmente de olhos fechados, a jovem que escolhesse um grão mais amadurecido, casaria com um homem mais velho. Aquela que escolhesse um grão “amarelado” ou maduro, casaria com um solteirão. E aquela que escolhesse um grão verde, casaria com homem mais moço. E nem precisa dizer qual o grão dona Kinha sempre apanhava, né?

 

Uma união feliz

Eles noivaram em 28 de maio. Casaram em 31 de junho. Sessenta anos depois, o casal vive juntos, numa parceria romântica, na mesma casa, onde criaram os oito filhos, na rua 1.202, no bairro Ilhota. Seu Maneca conta que no início tinha apenas oito casas em todo o bairro. Ele trabalhou durante muito tempo na lavoura, sempre acompanhado da amada. Colhia e plantava de tudo um pouco (banana, café, milho, feijão e a farinha de mandioca). Esta última foi a grande responsável pelo sustento da família. Seu Maneca ainda revelou que no início, quando o engenho era praticamente todo manual, chegou a produzir farinha durante 11 meses a fio. Desta linda união, que está presta a completar seis décadas, nasceram oito filhos: Noemia, Sebastião, Carmelita, José (que hoje mora no céu), Manoel, Idalécio, Silvano e Regina.

 

Alguns contos do casal

Dona Kinha sempre foi muito conversadeira. Isso a nossa reportagem pode perceber. Ela adora contar histórias, sempre cheias de detalhes. Uma delas dá conta de uma “aranha na praia”. Isso mesmo, uma aranha na praia. Quando criança, sua madrinha ia passear pelo Canto da Praia com uma amiga e levara a afilhada junto. As duas amigas, já mocinhas, queriam namorar, e pediram para Kinha, então uma criancinha, brincar na areia da praia. Muito obediente, Kinha começou a brincar quando percebeu algo estranho no mar. “Era um dia que a maré tinha baixado e, de repente, vi uma coisa estranha, um bicho com várias garrinhas… comecei a gritar de medo, logo a minha madrinha e amiga vieram ao meu socorro, quando me disseram que se tratava de uma lagosta. Nunca tinha visto.. foi muito engraçado”, relembra Kinha.

 

Homens de borracha invadem Itapema

Outra história, muito interessante, que o casal conta foi quando, suspostamente, nossa querida Itapema, teria sido invadida por homens de borracha. Foi logo depois a Segunda Guerra Mundial (meados de 1949), o mundo inteiro vivia uma tensão, devido à guerra. Por aqui, mas precisamente no Canto da Praia, vivia uma senhora chamada “Maria Portuguesa”. Dona Kinha conta que naquela época não se comprava vassouras, mas, sim, se apanha no mato. Foi numa dessas que “Maria Portuguesa” acabou se deparando com os tais homens de borracha, que teriam saído do submarinho. “Naquele período, se falava muito da guerra, de submarinhos, todos estavam muitos tensos, devido aos acontecidos”, revela Seu Maneca. “Os homens da cidade, depois que souberam da tal aparição de supostos homens de borrachas, começaram a montar guarita para proteger as famílias”, conta dona Kinha. “Os homens passavam a noite inteira na espreita, sem dormir. Ficava uma turma aqui na altura da PRF e outra na Meia Praia… foi um verdadeiro reboliço na cidade. O assunto durou quase dois anos na cidade até que se descobriu-se que se tratava de uma história inventada pela tal português. Ela acabou presa, foi levada de carro de mola até a cadeia. Me lembro bem, desde dia”, revela dona Kinha.

 

Comemoração à vista

Na casa do simpático casal, há um ponto de encontro de toda a família, o Rancho dos Avós Maneca e Kinha. O local já foi encontro de várias reuniões da família Silva, a próxima, se Deus quiser, será para comemorar as bodas de Diamante do casal.