Seu Pedro Cunha: o lobo do mar

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Nossa Gente, Nossa História

O personagem desta semana da nossa série especial é um autêntico pescador, um dos primeiros moradores do bairro Ilhota, daqueles nascidos em décadas passadas. Seu Pedro Cunha, hoje, com 92 anos, é da época em que nem mesmo existia o município. Do tempo em que era quase tudo mata preservada. Criou-se perto do mar e dele soube sabiamente viver. Embarque com a gente nessa viagem. O mar está calmo e no barco deste nobre pescador sempre tem lugar para mais um.

Cleyton Amaral

Cada ruga do rosto foi conquistada devido aos inúmeros sacolejos do barco em dias e noites longe de casa. Feriado ou dia santo, nunca foi diferente: sempre ao mar. Do pescado veio a renda para sustentar 12 filhos que teve com seu único e grande amor: dona Rosa Pereira Cunha, hoje, um anjo a cuidar de Seu Pedro. Da imensidão das águas uma energia que o mantêm de pé, sem fraquejar, em meio a algumas perdas.

Nascido no dia 28 de março de 1926, no “Estaleiro Grande”, seu Pedro Cunha é o morador mais antigo da comunidade do bairro Ilhota, em Itapema. Com seus cabelos ralinhos e brancos, sempre tem um causo para contar. Para nossa reportagem numa tarde quente de verão, em sua casa, na rua 1208, contou “estórias”. Saciou curiosidades. Narrou epopeias da cidade antiga com total fidelidade à sua lembrança. Falou do mar. Da companheira. Das alegrias. Das tristezas. Enfim, um bate-papo rejuvenescedor.

Das primeiras lembranças…

Filho de Antônio Basílio e de Clementina Guilhermina Siqueira. Seu Pedro nasceu no ano de 1926. Um ano depois em que foi inventada a televisão, que ele conheceu somente anos depois. À época, a natureza e sua singularidade não podiam ser traduzidas em uma tela, mesmo que plana. Seus pais tiveram mais três filhos. Antônio Basílio, foi assim como o filho um homem do mar. “Meu pai tirou a carteira de pescador em 1922”, fala Seu Pedro enquanto tira de um envelope meio amarelado devido ao tempo, os pequenos pedaços do documento original do pai, que ele cuidou e preservou durante anos com muito carinho. Sentado na mesa de sua cozinha, em sua casa, no bairro Ilhota, em Itapema, as memórias vem à tona. “Meu pai, Seu Antônio Basílio pescava com arrasto, pegou muita tainha… pescava de caniço, numa pequena canoinha… até parece prosa de pescador. Naqueles tempos a fartura era outra”, rememora. O primeiro lance de tainha que Seu Pedro viu na vida é um causo bem engraçado que veremos mais adiante.

Do primeiro amor

Seu Pedro nos conta que sempre morou perto do mar. “Me mudei umas nove vezes, mas nunca abandonei o mar”. O pequeno de vilarejo de pescadores daquela época era composto por poucas famílias que moravam meio distante uma das outras, espalhadas entre Porto Belo e Camboriú. Por estas redondezas, mais precisamente no Estaleiro Grande nasceu Rosa, uma pura e delicada moça, que encantaria Seu Pedro no primeiro olhar. Dona Rosa hoje tem 85 anos, destes, mas de sessenta foram vividos ao lado do eterno companheiro. Mas se engana quem pensa que foi fácil pro Seu Pedro conquistar a jovem donzela. “Naquela época era muito comum os maridos roubarem a futura esposa dos pais. Com a gente não foi tão diferente. Fomos trabalhar em Blumenau, naquela ocasião, eu tinha uma namoradinha já e a Rosa também. A gente nem se falava”, relata Seu Pedro. “Quando deu época de voltar pra Itapema a gente se apaixonou. Nos casamos em idos de 1949. No último dia sete de setembro completamos 64 anos de amor e de companheirismo”, diz velho pescador com um brilho especial olhando para sua eterna sereia. O casal teve 12 filhos, deles 11 estão vivos. Foram quatro homens e sete mulheres.

O peixe grande

O Seu Pedro nos conta como conseguiu capturar um peixe mero de quase 100 quilos. “Me lembro que numa das nossas idas por mar, nos deparamos com uma equipe de mergulhadores que estavam caçando o mero aqui na baía. A turma deixou o bicho acuado, ele era danado de forte e acabou caindo na nossa rede de lagosta e acabamos ficando com o peixe. Ele estava com um arpão atravessado, como o peixe se batia muito nas pedras e os mergulhadores deixaram de lado. O mero se diferencia do cherne e da garoupa pela boca, a do mero é vermelha enquanto as dos outros são amareladas. Os mergulhadores não tinham experiência…”, diz Seu Pedro num tom maroto daqueles que só quem entender de mar sabe.

O lanço de tainha

Entre as fotos espalhadas na mesa da cozinha de Seu Pedro e de Dona Rosa, uma delas fez o velho lobo do mar lembrar de uma estória… Pedro lembra que uma vez ele e mais um amigo ficaram à deriva em alto mar porque a bateira havia dado problema. Foram socorridos por um amigo das Taquaras que forneceu abrigo para pernoitar. “Chegando na casa dele, pedi uma cachaça e uns cigarros e esperamos algum carro de boi que passar para nos levar de volta para casa”, relata o pescador. “Na manhã seguinte na praia deu um grande lance de tainha, tivemos que ajudar os amigos, foram preciso mais de três redes para conseguir capturar o lance. Na volta para casa só uma coisa nos afligia, cachorro do mato”, lembra com receio Seu Pedro. Mas para entender este causo é preciso antes, ouvir, ou melhor, ler, o próximo que conta como o pessoal de antigamente fazia para tentar se livrar do assustador cachorro do mato…

O feroz cachorro do mato

De uma coisa o nosso personagem tinha medo, era do tal cachorro do mato. Esta estória começou quando Seu Pedro era mais jovem, tinha por volta de 15 anos… “Uma vez, lá no Estaleiro eu vi o maior lance de tainha da minha vida. Era muito peixe, peixe em abundância mesmo. Meus amigos Zé Gregório e Pedro Maria, testemunharam o fato. Já era por volta da meia-noite e os pescadores ainda não haviam terminado de contar os peixes, que naquele horário já passava dos 30 mil. Por conselho dos mais velhos tive que pernoitar por aquelas bandas, era muito perigoso voltar para casa sozinho. Ficamos à beira mar contabilizando as tainhas até o sol raia. Assim que o dia amanheceu, estava na hora de subir o Morro do Boi. Os pescadores me ensinaram uma armadilha para despistar o temido cachorro do mato, famoso por sua ferocidade. Eles me mostraram que para espantar tal bicho feroz era necessário apenas uma tainha e um bambu bem grande”, explica Pedro. Segundo os pescadores mais antigos da região, o animal sentia de longe o cheiro do peixe. “Espetei uma tainha na vara de bambu e subir o morro, se por ventura avistasse o animal era para jogar a vara de bambu com a tainha atravessada (que serviria de isca) para um lado e correr em disparada para o outro”, nos revela o segredo em meio à gargalhadas.