Ternos de Reis: tradição de Natal tenta se manter viva em Itapema

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Nossa Gente, nossa História

 

Talvez os itapemenses mais jovens desconheçam o Terno de Reis, que percorria as casas da comunidade, levando música, dança, orações e anunciando a chegada do Menino Jesus até as famílias. Aqui na cidade, a tradição ainda tenta sobreviver por meio de personagens como seu Adão Batista Ferreira, do Alto São Bento.

 

Cleyton Amaral

 

“Era um grupo de pessoas diferenciadas, com respeito à fé. Eles não cantavam simplesmente por cantar, não era para ganhar dinheiro, nada disso. Era uma devoção, era por amor”. As palavras são de Adão Batista Ferreira, um dos últimos cantadores de Terno de Reis de Itapema e que se esforça para manter viva a tradição.

Na sua casa, no bairro Alto São Bento, com as mãos na viola, entre um verso e outro, relembra emocionado de outros cantores como Seu Neca da dona Zóla, Seu Manoel Ricardo, Seu Celito (do São Paulinho), seu Herneto, seu Tonho…. Naquela época, o amor pelo Terno de Reis era passado de pai para filhos. Apesar de não ser nativo de Itapema, seu Adão se apaixonou e aprendeu a magia do Terno em meados 90, ouvindo os cantadores da época.

“Era uma euforia danada e uma emoção muito grande, porque sabíamos que existia um público especifico nos esperando ansiosos”, rememora.

Cantoria folclórica

Um dos últimos grupos de Terno de Reis era de seu Adão, que, infelizmente, acabou terminando em 2017, porém ele lembra que a chegada nas casas era sempre motivo de muita festa e alegria. “Às vezes as pessoas já estavam dormindo e escutavam os instrumentos batendo nas casas da vizinhança, e os cachorros latindo. E a gente diziam: ‘Olha, os reisados estão vindo aí. Eu até me arrepio quando lembro. Começávamos a tocar os instrumentos na porta da casa, e a família levantava, se arrumava e colocava a água do café no fogo. Nós cantávamos do lado de fora da casa, mas logo entravamos pela sala grande, cantando e dançando. Era uma festa.”

Seu Adão é um artista nato. Aprendeu tudo de ouvido. “Tudo o que aprendi foi olhando, observando muito, isso valei para o Terno e também para minhas profissões”.

Porém, a luta para se manter viva a tradição é desgostosa, principalmente em um ambiente onde a cultura parece estar em segundo plano. “Muita coisa aconteceu ao longo dos anos, coisas que afastaram as pessoas de suas raízes e origens, se não fizermos algo hoje a respeito, talvez esta tradição ficará apenas na memória. Se os jovens de hoje em dia se interessassem mais pelo nosso folclore, o destino seria diferente”, expressa

O Terno de Reis vem da cultura açoriana da região. Porém, em outras regiões do país pode ser chamada de Folia de Reis, Companhia de Reis, Reisado ou Festa de Santos Reis.

 

De cantador à artesão do mar

Outra grande paixão de seu Adão e que também tem uma grande ligação com a memória de Itapema são as redes de pescas. “Bom, o mar virou um sonho, desde que o vi pela primeira vez em uma novela chamada Mulheres de Areia, essa também foi a primeira vez que assisti TV. Foi um amor instantâneo… um sonho que se tornou realidade anos depois quando vim para Itapema. O convívio com pescadores locais fez com que eu me interessasse pela arte de tecer redes e tarrafas, de onde conseguir tirar meu sustento para ajudar nas despesas. Hoje, este oficio também pode estar ameaçado, mas continuo fazendo, se alguém precisar, é só chamar”.

 

*A reportagem faz parte de um levantamento cultural realizado pelo professor Paulo Nascimento, da secretaria de Cultura de Itapema. Nesta reportagem colaborou o estagiário Gabriel.