Turismo primário

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Nesse feriadão, optei em sair dos agitos do carnaval e passar dias agradáveis de descanso na Serra Gaúcha. Pela primeira vez, tirei a barriga da miséria e fui conhecer as charmosas cidades de Gramado e Canela. Mesmo em fevereiro, já vi na previsão do tempo que ia dar um friozinho, o que colaborou muito com o passeio.

Essas cidades são frequentadas por pessoas de bom poder aquisitivo. As hospedagens, atrações e lojas não são baratas, mas nem têm a intenção de ser. Ou seja, os municípios já decidiram que tipo de turista querem receber. Com uma rápida pesquisa no booking, consegui reservar um flat que custou R$ 60,00 a diária na cidade de Canela. Como fui de carro, consegui me deslocar facilmente entre as duas cidades, aproveitando tanto o turismo urbano quanto o rural.

Existem hospedagens para todos os gostos, desde hotéis, hostels, pousadas e airbnb – vai da decisão de cada turista. Nos dois primeiros dias choveu e fez muito frio, então aproveitei para passear pelas lojas, visitar igrejas, museus, fábricas de chocolate, adegas, vinícolas e deliciosas empórios. Fiz degustação de vinhos, chocolates, pães e até azeites. Comi um delicioso churrasco e um rodízio de fondue tão bem servido que quase 48 horas depois, ainda não senti fome. No terceiro dia, quando o sol finalmente apareceu, aproveitei para fazer um passeio ao ar livre. Visitei o parque do Caracol e sua linda cachoeira. Fiz trilhas ecológicas e fiquei morrendo de vontade de fazer um passeio a cavalo, mas não deu tempo. Bem como vou ter que deixar para a próxima vez o passeio nas vinícolas locais, que além de lindas, são muito bem avaliadas.

No caminho de volta, fiquei pensando como a nossa bela Itapema ainda tem um Everest a escalar no quesito turismo. Na última sessão da Câmara de Vereadores, Yagan Dadan disse algo que me deixou intrigada: “Itapema precisa definir se é uma cidade turística ou de veraneio. Turismo não se resume à praia e aluguel de temporada”. Por mais que eu adore a nossa cidade, sou obrigada a concordar com o vereador. Chega a ser patético dizer que uma das bases da economia do nosso município é o turismo.

Em entrevista com a prefeita, que fiz no início desse ano, Nilza disse que estão investindo na área rural da cidade, buscando proporcionar atrativos que não se resumam à praia. Bom, isso já é um começo, mas mesmo assim é muito irrisório. Se pensarmos apenas em comércio, Itapema conta com belas lojas na Meia Praia, que praticam preços exorbitantes em roupas de grifes. Já em Gramado, existem as grandes marcas, mas a grande maioria das lojas comercializa produtos locais: couro, lã, vinhos, chocolates e queijos, todos produzidos no Rio Grande do Sul. Isso faz parte do turismo: valorizar o seu produto interno!

Pois bem, o nosso principal produto interno é a praia… e o que dizer dessa praia? Não tive coragem de mergulhar no nosso mar nesse verão! O mal cheiro da água e da areia não apetecem o lazer no nosso principal atrativo. E os pescados? Bom, para se comprar um peixe fresco é necessário ir direto na fonte, lá no Canto da Praia, na aldeia de pescadores. Isso para mim é uma diversão, adoro! Porém, esses cidadãos precisam ser mais valorizados! O bom peixe é aquele que o senhor pescador limpa na hora pra gente e não aquelas embalagens industrializadas de “iscas de peixe” congeladas.

E a hotelaria? Poxa, ela é praticamente inexistente. Os aluguéis de temporada na cidade praticam preços exorbitantes e com a popularidade do airbnb, essa fonte de renda está com os dias contados! E o pior, fico pensando como que a pessoa que paga R$ 400,00 por uma diária de um apartamento tem estômago para nadar em um mar poluído? Será que os nossos administradores ainda não perceberem que esse incentivo ao turismo é prioridade na nossa cidade? Isso que nem cheguei a falar nas atrações culturais, porque sertanejo universitário em todos os bares da Meia Praia não é atração cultura…. Fico abismada com a nossa cidade. Acho que os nossos gestores precisam fazer umas saídas de campo em cidades que realmente trabalham com o turismo para pegar algumas dicas. Garanto que apreciei uma diversidade muito maior de atrações passando 3 dias em Gramado do que um sujeito que vem passar 15 dias em Itapema.