UM MÊS SEM ELA

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Reportagem especial

Passado mais de 30 dias, o jornal A Hora conversou com exclusividade com o Aldo Leite, viúvo da professora Simonara Rodrigues dos Santos, que teve a vida interrompida em trágico acidente de trânsito em Itapema, no mês de setembro. Hoje, passados mais de trintas dias, a família tenta seguir firme e unida, como sempre Simonara desejou. Segundo o marido, não há espaço para rancor, mas justiça tem quer ser feita.

Cleyton Amaral

O amor nem sempre está em grandes declarações, flores lindas e presentes caros. Às vezes, ele também na dor da saudade. Em certos momentos, a própria saudade e o amor se confundem ou mesmo se fundem. Por isso, toda história de amor é uma grande história de amor. Iniciamos a semana com reportagem especial, que tem o intuito de contar um pouco da trajetória da professora itapemense Simonara Rodrigues dos Santos, que teve sua vida interrompida no dia 29 de setembro de 2019, quando foi vítima de um atropelamento no túnel do bairro Morretes.

O amor


Aldo Leite é natural de Itajaí. Simonara era uma gaúcha, recém-chegada na cidade portuária com família. Há 26 anos, suas vidas se cruzaram de forma inesperada. Aldo, no auge dos seus vinte e pouco anos, foi acompanhar um amigo que estava namorando uma irmã de Simonara. Como a família dela não aceita que a filha saísse sozinha com o rapaz, Aldo foi junto para acompanhar a irmã da moça, no caso a Simonara. “Lembro-me muito bem do nosso primeiro olhar. No fundo, algo me dizia que ela seria a mulher da minha vida. Tanto que o casal de namoradinhos ficou apenas um dia, já Aldo e Simonara ficariam juntos por todo uma vida. Ela tinha 17 anos, ele 21. Logo que sentiu que a gaúcha era a mulher de sua vida, Aldo foi pedir autorização da família para namorar a moça. O amor foi tão intenso que logo deu fruto. Simonara engravidou e o casal apenas antecipou os planos do casamento. “Uma coisa a minha esposa nunca abriu mão, de priorizar a educação de nossos filhos. Ela abdicou naquele momento de sua carreira, para se dedicar à nossa família”, conta Aldo.

Sonho de ser professora

Em 2008, a família mudou-se para Itapema, pois Aldo trabalhava na Praiana e aqui seria melhor para a carreira dele. Em meados de 2010, Simonara viu que os dois filhos já estavam grandes, o mais velho com 17 anos e o caçula com 10, e foi aí, com o apoio do marido que ela decidiu voltar a estudar, justamente para mostrar aos filhos, a importância de se investir na educação. A tarefa de retornar às salas de aulas não foi fácil. Simonara havia parado na 6ª séria, frequentou o EJA (Ensino de Jovens e Adultos), e, quando estava finalizando o ensino médio, se viu vestida com jaleco branco e teve um pressentimento de que a sala de aula seria seu local de trabalho. Novamente com o suporte de toda a família, Simonara partiu para mais desafio, ingressar no curso de pedagogia. “Tinha um grande orgulho dela, de ver o esforço de cuidar da casa e, nos sábados, ir até Balneário Camboriú para estudar para realizar seu sonho. Em setembro de 2018, vivemos um dos momentos mais felizes, quando, enfim, ela conseguiu se formar. Ela estava tão feliz, tão radiante que a emoção dela, era a nossa emoção”, expressa.

Após o sonho de se tornar professora, Simonara chegou a atuar em algumas escolas do município, no Sertão do Trombudo. A convite de diretora da APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), ela aceitou mais um desafio: trabalhar com crianças especiais. Foi ali, na APAE, que Simonara se realizou. Ficava encantada, como toda professora, quando via a evolução dos seus alunos. E esse encantamento ultrapassava os muros da associação e ia até os lares dos alunos, pois os pais percebiam o carinho e a dedicação da professora.

Simonara, segundo seu marido, sempre foi muito zelosa também com as finanças. “Quando uma conta estava para vencer, ela não via a hora de sair para pagar. Naquele domingo, dia 29/09, estávamos em casa e tinha uma conta que vencia no dia 2. Então decidimos sair para pagar. No primeiro momento iriamos de moto, mas por alguma razão a motocicleta não pegou. Foi aí que decidimos ir de bicicleta. Ela estava mais que acostumada em pedalar, fazia isso diariamente para ir trabalhar. Saímos de casa também para aproveitar aquela noite, para conversar um pouco, falar dos planos da nossa próxima viagem… nunca imaginaria que ela não retornaria mais para nosso lar”, relata Aldo.


O acidente

“Foi tudo muito rápido. Não deu tempo de reação. O que mais me revoltou foi o fato de o motorista não der prestado socorro. Isso não tem como entender. Eu mesmo trabalhei durante anos em uma empresa de transporte, sei que no trânsito, uma fração de segundo é p suficiente para interromper uma vida. Ele ter fugido do local, sem ao menos ter parado foi de total desumanidade. Sabe, depois de tudo, da dor da perda, tento não guardar rancor, mas isso não afasta o nosso desejo de justiça. Para que a vida da minha esposa não tenha sido em vão. Contratamos um advogado, inclusive, quero aqui manifestar o meu agradecimento ao Cleverson Tanaka que desde o dia do acidente nos deu apoio, dando que ele foi o primeiro a entrar em contato com a empresa, informando o acontecido. Hoje o processo está correndo, a transportadora tinha seguro, mas nada, nada irá trazer minha esposa carinhosa, a mãe amiga, a professora dedicada de volta”, finaliza.